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Blog do Paulinho

Torcemos o nariz para o hijab, mas aceitamos a tortura do salto alto

Da FOLHA

Por FERNANDA TORRES

Enquanto se nega o racismo estrutural, o diálogo parece ter cedido à incapacidade de escuta e à agressividade

Um mês longe de casa, sem nenhuma menção do Brasil no noticiário internacional, a não ser por uma breve imagem de Messias, num programa sobre as ameaças globais ao meio ambiente.

A distância, acompanhei a falsa polêmica sobre o racismo reverso nos jornais. Chamo de falsa porque é impossível separar a vergonhosa desigualdade social brasileira de sua herança escravocrata, bem como comparar a animosidade inerente às tribos humanas com as sequelas nefastas de uma política de séculos de escravização em massa.

Leis de acesso à educação, à saúde, à habitação, ao transporte e ao saneamento devem englobar gregos e troianos. Mas a carência geral não impede que, em paralelo, se discuta o preconceito evidente e a imensa dívida do país para com os descendentes de africanos escravizados.

O setor audiovisual, do qual faço parte, é prova de que o racismo estrutural existe. Para quem duvida, aconselho assistir ao documentário “A Negação do Brasil”, de Joel Zito Araújo, disponível no YouTube, sobre a representação dos negros nas telenovelas brasileiras.

Em 1968, Geraldo Vietri, autor da novela “Antônio Maria”, acreditou ter mudado a mentalidade do brasileiro para com as empregadas domésticas, por meio da personagem Maria Clara, vivida pela atriz Jacira Silva.

Num depoimento para a câmera, uma radiante Maria Clara desabafou no horário nobre: “Eu quero ficar nessa casa porque aqui eu sou criada, sim, mas sou tratada como gente. A dona Carola, outro dia, até me beijou! No dia do meu aniversário, eles me deram presente como se eu fosse uma pessoa da família. […] Na cor, nós somos diferentes, no coração, não”.

A primeira empregada doméstica negra de sucesso da telenovela mereceu um final romântico, casando-se na igreja com um oficial das Forças Armadas. Emocionado, o noivo confessou, mirando a lente, que amava a mulher. “O que importa ela ser de cor, se a alma dela é branca e pura?”

Em “Escrava Isaura”, de 1976, os trabalhadores alforriados de uma fazenda rodearam os branquíssimos Edwin Luisi e Lucélia Santos para agradecer de joelhos a liberdade concedida. E, em 1980, nos bastidores de “Água Viva”, Bob Marley perguntou onde estavam os negros, antes de dar uma canja na festa da louríssima milionária Stella Simpson.

Foi só em 1994 que, numa atitude inédita, uma entidade ligada ao movimento negro de São Paulo acusou a Globo e Gilberto Braga, produtora e autor da novela “Pátria Minha”, de terem levado ao ar uma cena que não refletia o comportamento do negro na sociedade brasileira.

A maneira submissa com que o personagem Kennedy reagiu à acusação infundada do patrão mau caráter, Raul Pellegrini, de que ele havia arrombado o cofre da mansão foi o estopim da indignação.

Os autores do folhetim apelaram para o direito à liberdade de expressão, mas acabaram por reconhecer a infelicidade da cena. Quatro dias depois, um diálogo reparatório sobre o racismo, entre Kennedy e a mãe, foi transmitido via Embratel.

A acusação de que os movimentos negros brasileiros se curvaram à visão americana de raça, fruto da política do “one drop”, pode até ser discutida. Possuímos, de fato, uma experiência única de miscigenação, que poderia oferecer algo de diverso ao mundo, não tivesse o mito da democracia racial tupiniquim servido para escamotear nosso racismo arraigado.

Numa hora de radicalidade irrestrita, a sutileza e o diálogo parecem ter cedido à incapacidade de escuta e à agressividade. É preciso estar atento às raras tentativas de expressar o que temos de comum e contraditório.

A New Yorker Classics de janeiro traz um artigo de 2016, da escritora americana Elif Batuman, intitulado “A Head Scarf”, ou um lenço de cabeça. Filha de pesquisadores turcos imigrados para os Estados Unidos nos anos 1970, Batuman procura expressar a zona cinza que envolve as questões de raça, gênero, religião, liberdade e cultura, ao descrever o sentimento controverso que a cometeu ao portar o hijab —lenço que cobre a cabeça das mulheres muçulmanas—, numa visita à Turquia de Erdogan.

A autora se refere aos turcos laicos ocidentalizados como brancos e aos seguidores do Alcorão como pretos, discorrendo sobre a inesperada sensação de respeito e pertencimento que experimentou ao se cobrir com o hijab obrigatório, na caverna de Abraão.

Seu relato serve de espelho para as tensões em curso no Brasil, pois aborda a soberba do Ocidente esclarecido e as mágoas incuráveis que permeiam as relações entre colonizados e colonizadores.
Torcemos o nariz para o hijab, mas aceitamos a tortura do salto alto. E julgamos intransigentes as minorias, esquecidos da nossa própria empáfia.

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