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Vestidos dentro da piscina

De O GLOBO

Por CARLOS ANDREAZZA

Governo Militar

E então fomos informados de que a agenda oficial do vice-presidente Mourão em Angola abrigou gestões de paz para imbróglio privado. (Por que não mandaram Pazuello? É igualmente encostado, mas fiel ao Mito e mais experiente em cumprir missões do chefe; de resto, mão de obra de descarte fácil, uma vez que não eleito.)

Gestões de reconhecimento e pacificação para problema econômico privado. No caso, da Igreja Universal do Reino de Deus. Em entrevista à Agência Lusa, disse Mourão, que falava pelo governo do Brasil e decerto viajou à custa da União:

— Essa questão da Igreja Universal aqui afeta o governo e a sociedade brasileira pela penetração que essa igreja tem e pela participação política que ela possui, com um partido que é o partido Republicanos, que representa o pessoal da igreja.

Noção de República que explicará parte da fundura da depressão nacional. Sabe-se que dissolvidas vão as fronteiras entre as Forças Armadas — instituições impessoais de Estado — e o governo Bolsonaro; daí por que um governo militar. Mas a declaração do general — poderia ser um Braga Netto ou um Ramos — indica que há outras dissoluções, a ponto de o vice se sentir à vontade para advogar por interesses particulares.

São tantas as fronteiras vazadas que fica difícil saber por onde iniciar a análise do discurso. Talvez pedindo-lhe que explique ao povo, comido pela peste e pela inflação, como a “questão” da empresa privada Universal em Angola afetaria a sociedade brasileira. A não ser que Mourão também tenha uma compreensão totalitária do que seja sociedade — esta sendo aquela e apenas aquela que apoie Bolsonaro.

De que o problema afete o governo brasileiro, não há dúvida. A razão por que o general cuidou do assunto em Luanda. Porque a penetração da igreja na sociedade brasileira, por grande que seja, não se compara a sua participação política. Porque a capilaridade da Universal na sociedade deriva da influência de sua atividade política. Nada a ver com fé.

Fato é que há o problema. Que o problema é da Igreja Universal e, segundo Mourão, também do governo. E que esse problema — de novo — nada tem a ver com a fé. (Senão com a fé na reeleição.) Contextualize-se: há uma guerra entre a direção da Universal e um grupo de bispos angolanos da igreja. Um processo deflagrado em 2019, que resultaria em cisão. Os locais contestam o comando geral — o brasileiro — da Universal e têm o aval do governo de Angola, que reconhece a secessão como legítima.

Houve a ruptura; um problema econômico enorme para — aí, sim — a sociedade brasileira que controla mundialmente a igreja. Não confundir, como o vice, com a sociedade brasileira de que porção relevante frequenta os bancos da igreja. A sociedade brasileira aqui em questão é a que comanda o business, inclusive televisivo, e que tem sido importante apoiadora de Bolsonaro; o que se mede na maneira como se associa à causa.

O general Mourão desenhou:

— O governo brasileiro gostaria que se chegasse a um consenso entre as duas partes e que o Estado angolano recebesse a delegação parlamentar brasileira que quer vir aqui para tentar chegar a um acordo e a um ponto em que se arrefeçam as diferenças que ocorreram.

O vice-presidente da República do Brasil agindo como preparador de terreno para a visita do grupo econômico, vestido de delegação parlamentar, a quem caberia negociar os prejuízos; o vice-presidente, um general do Exército, como despachante fortuito de igreja multinacional, que detém partido político brasileiro, junto ao Estado angolano, que é uma ditadura.

Mais fácil seria se mandassem Pazuello à expedição. Ele chegaria a Angola como na reunião em que recebeu atravessadores que ofertavam 30 milhões de doses de CoronaVac ao Ministério da Saúde (por US$ 28 a dose). De súbito ignorando o que já lhe fora informado, que só o Butantan representava o imunizante da Sinovac (por US$ 10), chegaria ao final do encontro; e só para cumprimentar os dominguettis da vez. É o que diz a nota que fez circular, prudente como um ministro que pretende proteger o ministério empilhando coronéis blancos. Mas então resolveria gravar um vídeo, cheio de detalhes, sobre o negócio tratado em conversa de que não participara. Talvez um modo de cumprimentar. Seguramente uma baita oportunidade — se fosse maldoso — de aplicar rasteira em João Doria. O chefe vibraria.

Mas isso não lhe ocorreu. Melhor, ou teria sido uma frustração. Porque, assim que os reverendos amiltons da vez se despediram, soube que a proposta era “completamente inidônea”; isso, porém, não bastando para que demitisse os auxiliares que não só permitiram que aquela gente chegasse ali, como o expuseram ao perigo da gravação; casualmente, no gabinete mais facilmente acessível da República, o de Elcio Franco, aquele, responsável por todos os contratos para compra de vacinas, que Pazuello mandou apurar as denúncias sobre corrupção em contratos para compra de vacinas. Ante oferta safada da davati da vez, o então ministro agiu com energia: determinou que não se elaborasse o memorando de entendimentos prometido e que o vídeo não fosse divulgado.

Pronto. Tudo certo. Ninguém pelado na piscina. Como no contrato de aquisição da Covaxin. Ou como quando se fez sumir o aplicativo TrateCov, desaparecendo também a falta de oxigênio em Manaus.

Aprenda com Pazuello, Mourão. Ele se joga. De roupa.

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