André Mendonça será o novo Sergio Moro?

De O GLOBO
Por BERNARDO MELLO FRANCO
Relator dos casos Master e Lulinha, ministro do STF promete imparcialidade, mas vazamentos já influem na eleição
Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.
Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.
Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno.
Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes, subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o governo do pai dele.
Os escândalos devem servir de munição para as duas campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.
Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a “interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.
Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas sentenças.
Em declarações a um podcast de seu próprio instituto, Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e “imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.
Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou intimações para se explicar à polícia.

