Os 70 anos do Portugal Democrático

Da FOLHA
Por SYLVIO BAND e CARLOS SEABRA
- Jornal criado por exilados portugueses no Brasil foi resistência impressa e ajudou a promover a Revolução dos Cravos
- Experiência reforça que democracia não é herança garantida; precisa ser cultivada, defendida e reinventada
Em 7 de julho de 1956, nasceu em São Paulo um jornal feito de papel, tinta, convicção e exílio. Chamava-se Portugal Democrático e se tornaria o mais importante e duradouro órgão da oposição portuguesa no mundo. Criado por exilados como Vítor de Almeida Ramos e Manuel Ferreira Moura, ligados ao Partido Comunista Português, o jornal logo ultrapassou qualquer limite partidário. Tornou-se ponto de encontro de democratas de muitas origens: republicanos, liberais, socialistas, comunistas, anarquistas, católicos, intelectuais e trabalhadores unidos pela recusa ao fascismo de Salazar e Caetano.
O Portugal Democrático circulou até 1975, um ano depois da Revolução dos Cravos. Durante quase duas décadas, funcionou como uma oficina política e cultural da resistência. Não era apenas um jornal que informava. Era um espaço de articulação, denúncia, solidariedade e criação de vínculos. Suas páginas guardavam discursos, análises, apelos, protestos, manifestos. Não havia ali a falsa neutralidade de quem observa a opressão de longe. Havia compromisso. O jornalismo, naquele caso, era também uma forma de combate.
Instalado na capital paulista, o jornal viveu com poucos recursos e muita persistência. Dependia de doadores, de amigos, da solidariedade de setores progressistas brasileiros, do movimento estudantil e de intelectuais e acadêmicos que compreenderam a dimensão internacional daquela luta. Entre eles estiveram Florestan Fernandes, Carlos Guilherme Mota, Fernando Novais, Caio Prado Jr. e Paulo Duarte, além de tantos outros que fizeram da universidade não uma torre isolada, mas uma trincheira de pensamento e ação.
Também jornalistas da grande imprensa colaboraram com o periódico, mostrando que a liberdade não se defende apenas nos editoriais, mas nos atos concretos de solidariedade. Miguel Urbano Rodrigues, que veio a dirigir o “PD”, Cláudio Abramo, ex-diretor de Redação da Folha, Lívio Xavier, Perseu Abramo e muitos outros ajudaram a ampliar o alcance daquele jornal que, mesmo precário em recursos, era vasto em coragem. Cada edição era uma pequena barricada impressa.
Um de seus papéis mais importantes foi ajudar a internacionalizar a luta anticolonial. A ditadura portuguesa sustentava-se também sobre a guerra nas colônias africanas. Amílcar Cabral, líder do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), compreendeu com clareza essa engrenagem ao afirmar que a liquidação do colonialismo português arrastaria a destruição do fascismo em Portugal.
A resistência africana, em Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Moçambique e outros territórios, abalou a consciência de muitos militares portugueses e contribuiu para a crise final do regime. O Portugal Democrático ajudou a ligar essas lutas, dando voz aos movimentos de libertação e organizando campanhas pela paz.
Em 25 de abril de 1974, jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas derrubaram a ditadura. As tropas foram às ruas e pediram que o povo ficasse em casa. O povo, felizmente, desobedeceu. Saiu às ruas, ocupou a cidade e colocou cravos vermelhos nos fuzis e nos tanques. Era a imagem inesperada de uma revolução em que as armas, por um instante raro na história, pareciam florescer.
Nos seus últimos tempos, já depois de abril, o Portugal Democrático passou a circular mensalmente. Em 1975, o jornal encerrou suas atividades. Não por derrota, mas porque havia cumprido sua tarefa histórica.
Hoje, 70 anos depois de seu nascimento, sua memória não pertence ao passado morto. Num mundo em que a extrema direita volta a ganhar espaço, a experiência do Portugal Democrático recorda que a democracia não é uma herança garantida. Precisa ser cultivada, defendida e reinventada. Às vezes, com grandes gestos. Às vezes, com uma pequena Redação, algumas páginas impressas e a coragem de não se calar.

