O que a política latino-americana pode aprender com Messi

Da FOLHA
Por JORGE WERTHEIN
- Jogador argentino representa tipo de liderança cada vez mais raro na vida pública regional
- Capacidade de unir pessoas de diferentes ideologias e gerações contrasta com fragmentação social
A América Latina vive um momento desafiador. Aos problemas econômicos, sociais e de segurança soma-se uma crescente crise de confiança. Em muitos países, os cidadãos sentem-se cada vez mais distantes de seus dirigentes e menos convencidos de que a política seja capaz de oferecer soluções duradouras.
Nesse contexto, vale a pena observar um fenômeno aparentemente distante da política: a admiração que Lionel Messi desperta em milhões de pessoas ao redor do mundo. Não porque seja jogador de futebol. Não porque tenha conquistado títulos históricos. E certamente não porque deva servir como modelo para governar um país.
A razão é outra. Messi representa um tipo de liderança que parece cada vez mais raro na vida pública latino-americana. Milhões de pessoas de diferentes ideologias, religiões, gerações e nacionalidades o respeitam. Em uma região marcada pela polarização, esse consenso é algo extraordinário.
A primeira lição é a humildade. Em uma época em que muitos líderes acreditam que a visibilidade permanente é sinônimo de liderança, Messi seguiu o caminho oposto. Mesmo depois de conquistar praticamente tudo o que um atleta pode conquistar, nunca precisou proclamar-se o melhor. Sua autoridade foi construída pelos resultados e não pela autopromoção.
A segunda lição é a perseverança. Sua trajetória foi marcada por derrotas, críticas e decepções. No entanto, persistiu. Continuou trabalhando quando muitos duvidavam de sua capacidade de alcançar os maiores objetivos.
A Copa América e a Copa do Mundo foram consequências dessa determinação. Outra lição fundamental é a capacidade de trabalhar em equipe. Messi jamais venceu sozinho. Treinadores, companheiros, médicos, preparadores físicos e especialistas fizeram parte de cada conquista.
Sua grandeza esteve em potencializar talentos ao seu redor e colocá-los a serviço de um objetivo comum. A política frequentemente esquece essa verdade simples. Nenhum presidente transforma um país sozinho. Os avanços duradouros dependem de instituições sólidas, equipes competentes e capacidade de construir consensos.
Há também a coerência. Durante mais de vinte anos sob observação constante da imprensa e das redes sociais, Messi manteve valores e comportamentos consistentes. Essa coerência gera confiança. E a confiança é um dos recursos mais escassos das democracias contemporâneas.
Outra característica essencial é a disciplina. Seu sucesso não é fruto apenas do talento. É resultado de preparação, dedicação, sacrifício e trabalho contínuo. O mesmo acontece com os países. As nações não avançam apenas com discursos inspiradores. Avançam com planejamento, continuidade e capacidade de execução.
Messi também simboliza algo particularmente necessário para a América Latina: a capacidade de unir. Em sociedades cada vez mais fragmentadas, ele é um dos poucos consensos possíveis. Um líder democrático não precisa agradar a todos, mas deve governar para todos.
Talvez a lição mais importante seja sua capacidade de cercar-se de pessoas talentosas. Grandes líderes compreendem que ninguém sabe tudo. Sua força está em identificar talentos, reuni-los e permitir que floresçam.
Por fim, Messi lidera pelo exemplo. Sua autoridade nunca nasceu de discursos grandiosos, mas da coerência entre palavras e ações. Talvez seja exatamente disso que a América Latina mais precise. Nossas sociedades estão cansadas de promessas. O que procuram são resultados.
Talvez a região não precise de mais líderes que falem de si mesmos. Talvez precise de mais líderes capazes de colocar seu talento a serviço de um projeto coletivo.

