Há o que celebrar no Dia Mundial Sem Tabaco?

Da FOLHA

Por MÔNICA ANDREIS

  • Diminuição drástica das últimas décadas enfrenta agora aumento de fumantes, campanhas reduzidas e ameaça dos vapes
  • Cumprir a meta de redução do tabagismo em 40% até 2030 exige elevar preços, restringir aromas e ampliar informação

À pergunta do título deste artigo podemos responder “sim” e “não”. Sim, porque cerca de 35% dos brasileiros fumavam na década de 1980; hoje o índice é de 11,6%. Conseguimos fazer com que a população reconhecesse os males do cigarro, mudando a aceitação social do tabaco. Antes normalizado, o ato de fumar passou a não ser aceito, especialmente em ambientes fechados.

O segredo do sucesso foi a implementação de políticas públicas, que combinaram ações de conscientização, regulação estrita e legislação nacional. Não se trata apenas de uma decisão individual, mas de uma norma coletiva. Assim foi com a lei antifumo, que visava primariamente a proteção contra o fumo passivo, mas estimulou fumantes a repensarem o tabagismo.

aumento de preços e impostos entre 2011 e 2016 também impactou a redução do número de fumantes: a prevalência caiu 24%, representando quase 70% da queda total entre 2006 e 2016. É fato: preço baixo facilita o acesso e a iniciação ao fumo, enquanto o custo mais elevado desestimula o consumo. Por isso é tão importante que o tabaco, assim como outros produtos nocivos, tenha preços bem mais altos do que os de produtos saudáveis.

Acompanhar a transição de um produto onipresente como era o cigarro para restrição de publicidade e consumo, com a revelação do que os seus fabricantes queriam esconder, foi uma experiência histórica para a saúde pública.

Mas a celebração não pode ser completa. Pela primeira vez, desde 2006, o tabagismo voltou a crescer entre adultos: passou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, rompendo série histórica de queda, segundo os dados mais recentes do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

Para quem atua na área, não foi surpresa. Ficamos sete anos sem qualquer aumento, deixamos de realizar campanhas em larga escala e ainda permitimos aromas e sabores em produtos fumígenos, aumentando sua atratividade.

Também preocupa a relação de adolescentes com cigarros eletrônicos. A Pesquisa Nacional da Saúde Escolar (PeNSE) mostrou o avanço da experimentação entre jovens de 13 a 17 anos. Os produtos recorrem a práticas já conhecidas: sabores, aromas, embalagens atraentes e associação a momentos de celebração, convívio social e pessoas influentes —tudo pensado para ampliar o consumo e acelerar a dependência, ainda mais intensa devido às altas concentrações de nicotina.

A campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) para este domingo (31), Dia Mundial sem Tabaco, é clara: “Desmascarando o apelo – Combatendo a dependência de nicotina e tabaco”. A proposta é expor as táticas da indústria e reforçar a necessidade de políticas públicas que evitem retrocessos em uma área em que já avançamos tanto.

O Brasil estabeleceu uma meta de redução do tabagismo em 40% até 2030. Para chegar lá, três medidas são urgentes: elevar preços e impostos sobre produtos fumígenos, implementar a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que restringe o uso de aromas e sabores e informar sobre os riscos, expondo e contrapondo estratégias de um setor que lucra às custas de vidas, nossas vidas.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.