Corinthians, a expulsão de Andres Sanchez, as redes sociais e Maquiavel

Ontem, em noite histórica, o Conselho Deliberativo do Corinthians, bem conduzido pelo presidente interino, Leonardo Pantaleão, expulsou o ex-presidente Andres Sanchez do quadro de associados alvinegro.
Dos 167 conselheiros presentes, 112 votaram pela expulsão, enquanto 49 optaram pela permanência.
Houve ainda seis incríveis abstenções.
Andres caiu, como Al Capone, pelo descuido com um delito menor: a utilização de cartão corporativo para fins pessoais.
Fruto, evidentemente, da certeza da impunidade.
O que mudou para que o Conselho, que tremia ao escutar o nome de Sanchez, passasse a agir por sua eliminação, levando-se em consideração a proteção que lhe ofereceu diante de escabrosos casos de corrupção ao longo de quase duas décadas?
A mobilização na internet.
Antes, as denúncias contra o cartola, inicialmente realizadas apenas pelo Blog do Paulinho, repercutiam dentro do clube, mas eram — salvo raras e pontuais exceções — ignoradas pela denominada grande imprensa, que o cobria de elogios.
Fossem as mídias sociais fortes como hoje, Sanchez teria sido expulso há muito tempo.
Sozinho, o Blog era difamado, injuriado e caluniado de maneira tão intensa, e a custo tão elevado, que até hoje há quem acredite nas mentiras erguidas como cortinas de fumaça para esconder os crimes desvendados.
Nesta época em que as informações circulam com extrema rapidez e são pulverizadas em diversos canais, coube a um torcedor, ainda que sem pretensão jornalística, revelar documentos que culminaram na queda do dirigente.
Luiz Carlos Martucci Junior, autodenominado “Pastor Mala”, que teve a identidade revelada pelo Blog do Paulinho.
Fosse há alguns anos, a máquina engoliria o assunto.
Agora, as provas viralizaram até chamarem a atenção do poder público e, consequentemente, colocarem a mídia — assim como os conselheiros do Corinthians — diante de uma encruzilhada difícil de abafar.
Ontem, na votação derradeira, o fator decisivo foi o voto aberto.
Outra conquista garantida pela pressão popular.
Fosse secreta a votação, Sanchez se safaria — havia acordos pré-estabelecidos nesse sentido.
Por medo da opinião pública, sobretudo daqueles que precisam manter viabilidade política para continuar sobrevivendo do clube, muita gente, a contragosto, votou pelo desligamento.
Mas houve também outros motivos.
Maquiavel dizia que o maior problema de um credor é possuir uma dívida tão grande com um devedor que a única solução passa a ser elimina-lo.
Alguns conselheiros, que há anos desejavam livrar-se do rabo preso com Andres Sanchez, encontraram na possível reação popular a desculpa adequada para jogá-lo ao mar.
Livraram-se da dívida.
O credor não teria mais poder político para cobrá-los.
É o caso, por exemplo, de Sérgio Janikian, que durante longos anos parasitou o então prestígio político de Andres Sanchez, embora sempre mais ligado ao conselheiro André Negão.
Para manter possibilidades futuras — seja almejando candidatura presidencial ou tentando alinhar-se ao atual grupo gestor como vice —, mudou o voto na última hora, em traição escandalosa.
Situação também de alguns membros do grupo ‘União dos Vitalícios’.
O mesmo não ocorreu com os delegados Mario Gobbi e Ivaney Caires, além de alguns desembargadores do clube.
Apesar de envergonharem seus compromissos públicos, mantiveram-se leais a quem lhes estendeu as mãos em Parque São Jorge, mesmo em deslealdade ao Corinthians.
Gobbi com voto pela não expulsão; Caires, em covarde abstenção.
Convenhamos: nada que já não tivessem feito no passado.
Abjeto, mas coerente.
Entre os conselheiros vitalícios, votaram pela absolvição de Andres Sanchez (14):
- Desembargador Ademir Benedito (que tem filho empegado nas categorias de base)
- Alexandre Husni (que confessou compra de sentença de juiz em reunião em que esteve presente Andres Sanchez)
- André Negão
- Antoine Gebran (diretor de Sanchez no rebaixamento de 2007)
- Aurélio de Paula (que recebe ordens de André Negão)
- Deovaldo do Amaral Carvalho
- Elie Werdo (ex-vice presidente, membro da Renovação e Transparência)
- Desembargador Guilherme Strenger
- Henrique Alves
- Jaça (bicheiro, padrinho político de Andres Sanchez)
- Jorge ‘Totó’ Kalil (ex-diretor adjunto de futebol)
- Jorge Alberto Aun
- Delegado Mario Gobbi
- Paulino Tritapepe Neto
Pela expulsão (16):
- Carlos Roberto de Melo;
- Cesar Romeu Gonçalves da Silva
- Claudio Helu
- Edson Aparecido Geanelli
- Eduardo Nesi Curi
- Flávio Adauto
- Flávio Faloppa
- Fran Papaiodanou
- Heleno Maluf
- Ilmar Schiavenato
- José Augusto Mendes
- Desembargador Miguel Marques e Silva
- Miriam Athiê
- Rubens Gomes (Rubão)
- Ruy Marco Antônio Filho
- Waldir Coxinha
Abstenção
- Delegado Ivaney Caires
- José Mansur Farhat (fugiu antes da votação)
Entre as ausências relevantes, Roque Citadini está na Europa, em viagem programada antes da definição da data da reunião.
Romeu Tuma Junior alegou preservar-se para possível atuação em eventual retorno à presidência do Conselho.
Roberto Andrade faltou por ingratidão, enquanto o capo Paulo Garcia e seu subalterno Jorge Rachid (no caso dele, bastaria, como fizeram outros diretores, licenciar-se do cargo), que trabalharam pela absolvição, ausentaram-se por covardia diante do ‘voto aberto’.
No novo mundo do Corinthians, em que, ao que parece, não haverá mais tolerância com lideranças flagradas roubando, ainda há longo caminho a ser percorrido.
O clube segue refém de uma corja política que tolera pequenos delitos para se manter no poder.
Uma gente incompetente, irresponsável e desprovida de qualquer preocupação com o futuro do Corinthians.
Muitos deles ex-partícipes dos delitos de Andres, agora travestidos de indignados.
União dos Vitalícios e Centrão entre eles.
A limpeza precisa ser ampla, geral e irrestrita.
Em havendo, poucos restariam.
É a partir daí, mantido o sistema associativo ou por meio de intervenção judicial, que o Corinthians será reconstruído.
Imagens: Identidade Corinthiana

Parabéns Paulinho, acompanho o blog desde os primórdios e acho que isso é uma grande vitória para você. Parece que o motoboy venceu taxinha.