O drama de Neymar vai ao teatro

De O GLOBO
Por JOQUIM FERREIRA DOS SANTOS
A história do jogador que, cansado das obrigações do sucesso, tenta destruir a própria carreira
Você era o Neymar, o jogador mais divertido do planeta, nada a ver com a máquina programada de fazer gols de um Cristiano Ronaldo. Era o inesperado fazendo uma surpresa atrás da outra, e eis que agora eu estou assistindo “Assim na terra como no céu”, no Teatro Ipanema, uma peça sobre um jogador de futebol que chega ao topo e, cansado das obrigações para se manter ali, decide destruir a própria carreira. Esse cara só pode ser você, o maior dos enganos e dos desperdícios do futebol.
De quatro em quatro anos a pátria se fazia em chuteiras, embandeirava a rua de esperança, todos juntos na crença de que com o brasileiro não há quem possa, que ninguém nos vence em vibração e outras convicções orgulhosas – todas esmagadas no 7 a 1. Voltamos a ser um vira-lata entre as nações.
Você era o Neymar, em honra de quem eram pintados os muros das cidades. Era o maluco que reinventou os dribles, um repertório de espantos mais rock-and-roll do que os tangueiros, curtinhos, de pulga assanhada, do assaz genial Messi. Você era quem dava as ordens no terreiro, aquele que mandava aumentar o som porque ia rolar a festa. Quase sempre tinha.
Em “Assim na terra como no céu”, o jogador que não aguenta mais os compromissos com o sucesso, e pede para sair, está enrolado com as bets dos parentes, um turbilhão de idiotices suicidas que no noticiário recente envolve outros craques. Não se parece factualmente com você, Neymar, mais dedicado à autossabotagem das noites em claro com os parças do pôquer – e, no entanto, ali sob os refletores do palco, era impossível não enxergar tua sombra dramática.
Não faz muito tempo, você era o filho direto da pedalada do Robinho com o elástico do Ronaldinho Gaúcho, o pai natural dessa molecada que acabou de chegar – Olise, Doué, Yamal e Luiz Henrique. São jovens jogadores dedicados à arte do drible e todo dia, antes dos treinos, eles acendem uma vela no altar onde, num telão ao fundo, passa em looping aquele teu gol eterno contra o Flamengo em 2011.
O sucesso é um inferno que cobra caro, um adversário que precisa ser superado a cada próxima partida, e você, que não era Deus, que era apenas um menino de Santos, fez o mesmo que o protagonista da peça em Ipanema – começou a jogar contra o patrimônio. Tentou acabar com esse sofrimento de se vencer a cada jogo e foi deixando o ofício para trás. Perdemos todos.
Você era o Neymar, aquele que não resolveu as três últimas Copas do Mundo, mas unia o país na razoabilidade dessa pretensão – e, de repente, na corrente pra frente, torcíamos. Você era a figurinha carimbada que dava sentido ao álbum da garotada. Se não fosse tanta dancinha, tanta influencer dando mole, tanto talento jogado fora, você seria o dez que agora faria o brasileiro esquecer – assim na Terra, como no céu! – esse Congresso, essa polarização, essa sensação amarga de que dessa vez não vai dar nem pra saída.
NOTA DO BLOG: ontem Neymar sabotou-se ainda mais ao aplicar uma rasteira, após discussão ríspida, no jovem Robinho Junior, que o havia driblado em treinamento.
