Trump e as palavras

Da FOLHA

Por HÉLIO SCHWARTSMAN

  • Presidente americano é tão hiperbólico que o que ele diz não significa nada
  • Eleição de líderes carismáticos mas destrutivos é ponto fraco da democracia

Donald Trump já proferiu tantas barbaridades que fica difícil eleger a frase mais escabrosa. Uma séria candidata é a declaração de que destruiria em uma noite a civilização persa, “para nunca mais ressuscitar”. Se qualquer outro presidente americano tivesse dito algo parecido, teria sua sanidade seriamente questionada e teria deflagrado uma crise política potencialmente fatal. Sendo Trump o autor da máxima, até encontramos comentários indignados, mas parece pouco provável que a ameaça de genocídio ao vivo lhe encurte o mandato.

O problema do estilo Trump de presidir é que ele precisa chocar os adversários e mobilizar os correligionários o tempo todo. E essa é uma estratégia autolimitada pela chamada realidade. Para manter o efeito pretendido, cada nova declaração tem de ser mais ultrajante do que a anterior, de modo que logo entramos no terreno das impossibilidades. Depois da civilização persa, o que ele pode prometer? Acabar com o planeta, incluindo Mar-a-Lago? O resultado prático é que ninguém mais leva muito a sério a palavra do presidente.

Se isso pode ser interpretado como um superpoder na hora de evadir-se de responsabilização política, também pode ser visto como um ônus, já que nem aliados dos EUA podem mais confiar em promessas da liderança do país. A linguagem só se fixou nas sociedades humanas porque ela comunica mais verdades do que embustes. Se mudarmos esses parâmetros, é questão de tempo até que ela deixe de ser útil.

É verdade que Trump, quase octogenário e constitucionalmente impedido de exercer um terceiro mandato, tem seu horizonte político em tese limitado a pouco menos de três anos. Não experimentará ele próprio os piores efeitos de seu estilo tóxico de comandar. Esse é um legado que ele deixará para o país.

Trump materializa um dos pontos fracos da democracia. Especialmente quando o eleitor está mais interessado no espetáculo do que na responsabilidade, líderes perigosamente destrutivos chegam ao poder. Acabam saindo, mas o estrago pode ser grande.

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