Clássico não é guerra

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Antes restrita às torcidas, violência agora envolve jogadores, numa deturpação do futebol

As cenas de selvageria explícita entre jogadores em clássicos recentes, como Corinthians x Palmeiras, dia 12 passado, e Cruzeiro x Atlético-MG, em 8 de março, mostram uma preocupante escalada da violência no futebol brasileiro. Se antes a rivalidade se limitava basicamente às arquibancadas, com as brigas de torcida, agora são os próprios atletas que parecem incorporar a intolerância característica dos hooligans, transformando os adversários do jogo em inimigos a serem destruídos apenas porque vestem uma camisa de outro time.

No futebol, os clássicos ocupam um lugar especial: são os confrontos entre equipes cuja rivalidade se consolidou há tanto tempo que ninguém mais se pergunta como ou por que começou. Em geral envolvem times com milhões de aficionados, e uma derrota representa muito mais do que um simples resultado de jogo – não raro, é tratada como uma inadmissível vergonha, que custa a cabeça de técnicos e que tira o sono dos torcedores.

Que os fanáticos assim vejam, é compreensível, porque o time do coração costuma ser o eixo que lhes dá significado à vida e sentido de pertencimento – e, a depender das circunstâncias, são até capazes de matar torcedores dos times rivais, considerados indignos sequer de existir.

Mas os jogadores de futebol não podem dar à rivalidade o mesmo tratamento que os torcedores. Ao contrário, precisam ser em campo o exemplo de convivência respeitosa com o adversário, justamente para estimular os torcedores a encararem o jogo pelo que ele é: uma “guerra” de fantasia, em que não há mortos, apenas derrotados – que no próximo encontro terão a oportunidade da revanche.

É evidente que confrontos de grande voltagem, como os mencionados clássicos, envolvem tensão e cobranças que muitas vezes contaminam o clima em campo. O jogo frequentemente é disputado com grande rispidez e exige pulso firme dos árbitros. Mas os atletas, além de serem profissionais muito bem pagos apenas para jogar futebol, precisam ter consciência de que rigorosamente nada justifica tratar colegas de trabalho como inimigos.

Está na hora de colocar água na fervura, e isso é uma tarefa que cabe aos dirigentes e treinadores – sobretudo aqueles que ficam à beira do gramado vociferando contra decisões da arbitragem e instigando seus atletas a comportamentos reprováveis. Não vale tudo para ganhar um jogo, por mais importante que seja.

Em São Paulo, a violência no futebol chegou a tal ponto que, nos clássicos, somente a torcida do time mandante pode entrar. É uma vergonha que assim seja, sinal de total incapacidade do Estado e da sociedade de estabelecer padrões mínimos de convivência num estádio de futebol. Por essa lógica, a julgar pelo que vimos no jogo Corinthians x Palmeiras e temos visto em outros clássicos no Estado, em que jogadores e técnicos também se comportaram de maneira truculenta e desleal, talvez seja o caso de permitir que somente o time mandante entre em campo – e então, diante de situação tão surreal, paremos para refletir no que está se transformando o futebol no Brasil.

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