A nota oficial do vice-presidente, agora licenciado, do Corinthians

Indiciado por furto qualificado, apropriação indébita e coação no curso do processo no âmbito de um inquérito do MP-SP que investiga desvios de materiais do Corinthians — prioritariamente uniformes da Nike —, o vice-presidente Armando Mendonça, após uma desesperadora luta para se manter no cargo, publicou nota oficial comunicando licença de 30 dias.
Não é suficiente, por óbvio.
Tanto o relatório de auditoria interna do clube quanto o da Promotoria são absolutamente eficazes em demonstrar a apropriação indébita.
O do MP-SP vai além e reuniu 39 minutos de áudio nos quais há escandalosa coação.
Material ao qual o Blog do Paulinho publicou alguns trechos, mas teve acesso na íntegra.
Resta discutir o furto qualificado, porque é óbvio que Mendonça, um homem rico, salvo se acometido por cleptomania, a princípio não desviaria itens de pequeno valor para proveito próprio, embora pareça claro, evidenciado pela própria “confissão” exposta em conversa telefônica, que o tenha feito em benefício político pessoal, apesar de tratar o caso como ‘ajuda’ ao clube.
Antes de se afastar, Armando brigou pela permanência.
Reuniu-se no quinto andar do clube e implorou por socorro institucional, que lhe foi negado.
Sem alternativa, optou pelo meio-termo, saindo do foco da mídia e da torcida, enquanto suplica agora pelo milagre de a Justiça recusar-se a torná-lo réu, decisão que deverá ser tomada em breve.
Da nota do vice afastado, destacaremos o que pode ou não ser verdade.
“Por isso, afirmo com absoluta clareza: nunca desviei qualquer material do Sport Club Corinthians Paulista.”
Esse trecho é desmentido pelo próprio Armando Mendonça, em conversa tornada pública com o diretor Marcelo Munhoes.
“O próprio documento interno produzido no âmbito do Corinthians não afirma que eu tenha praticado desvio, apropriação ou qualquer conduta dessa natureza. Também o inquérito policial não conclui pela existência de desvio de materiais por minha parte.”
Nesse caso, há distorção.
Não era objeto da averiguação interna apontar culpados, mas relatar os desvios e demonstrar quais pessoas, dentro do clube, mantinham responsabilidades sobre o estoque dos materiais.
Sobre o inquérito policial, o relatório do MP-SP tratou de desmoralizá-lo.
“Infelizmente, faltou firmeza da instituição, por meio de seu presidente, em esclarecer esse ponto para a torcida, sócios e conselheiros. Faltou vontade de quem poderia fazê-lo para encerrar de vez uma narrativa falsa, injusta e destrutiva. Uma acusação dessa natureza merece uma posição do clube para toda a nação corintiana, e não apenas em rodas de sócios, amigos e alguns torcedores.”
É verdade.
Mas o que esperava Armando de Osmar Stabile, seu inimigo íntimo, numa relação em que a recíproca também é verdadeira?
A investigação foi determinada pelo presidente tão somente porque precisava de elementos que comprovassem aquilo que já era de conhecimento interno no Parque São Jorge.
Tanto que Munhoes, o investigador, permanece no cargo.
“Também é preciso dizer, com serenidade e firmeza, que não se pode atribuir a mim suposta gestão temerária sobre área que não estava sob minha responsabilidade direta e que não integrava minhas atribuições institucionais. A vice-presidência que exerço não se confundia com gestão operacional de almoxarifado, controle de estoque, distribuição ou baixa de materiais esportivos.”
Neste trecho, a cara de pau é grande.
É fato que entre as atribuições do vice-presidente não está a de chefe do almoxarifado, assim como não há previsão para o exercício do cargo de aspone do departamento de futebol, espécie de observador de marmanjos, a quem alguns jogadores tratavam como traíra — caso explícito de Memphis Depay, com direito a expulsões do vestiário e também da festa de aniversário do holandês.
Ainda assim, as funções foram exercidas.
“Repudio, ainda, a divulgação seletiva de trechos de supostas conversas privadas, gravadas clandestinamente, ocorridas há muitos meses, em setembro de 2025, e trazidas a público apenas agora, sem que se conheça sua integralidade, seu contexto, sua cadeia de custódia e sua validação técnica.”
“Se alguém, há mais de oito meses, registrou uma conversa privada às escondidas, guardou esse material, selecionou trechos e somente agora o trouxe a público, esse método, por si só, revela muito sobre sua real intenção.”
Houve divulgação, evidentemente seletiva, por parte do Blog do Paulinho, de trechos relevantes de uma conversa de 39 minutos que, se tornada pública na íntegra, além de preencher o cérebro do leitor com inutilidades, seria ainda pior para quem passou o tempo inteiro ameaçando ou implorando à outra parte.
Isso se chama jornalismo, em que apenas o que é relevante deve ser divulgado.
Havia, diferentemente do que diz Armando, conhecimento da integralidade e validação técnica, pois o áudio foi disponibilizado ao MP-SP com o gravador ligado desde antes do atendimento da ligação até o efetivo encerramento da conversa, sem cortes, sendo posteriormente objeto de ata notarial lavrada em cartório da Capital, com a fé pública que lhe é inerente.
“Ao levar à tona a gravidade dos fatos envolvendo o caso Vai de Bet, sei que fiz inimigos. Quando tomei conhecimento daqueles fatos, minha consciência não me permitiu outro caminho. Rompi imediatamente.”
“Cada pessoa sabe o tempo de suas decisões e o peso de seus silêncios. Não me cabe julgar a consciência de ninguém. Mas é importante lembrar que nem todos se posicionaram no mesmo momento. Houve quem demorasse, houve quem permanecesse próximo e houve até quem aceitasse funções depois de fatos graves já conhecidos.”
É verdade.
Um dos casos de pessoas que aceitaram funções depois de fatos graves já conhecidos foi o de Rozallah Santoro, aliado político de Armando, no Centrão, que pediu demissão, mas retomou o cargo na sequência.
O que Armando não contou é que, ao aceitar ser vice de Augusto Melo, provavelmente já sabia — salvo se estivesse em coma durante o período eleitoral — que se tratava de alguém condenado à prisão por crimes fiscais, com empresas existentes apenas no papel, que aplicara golpes no meio do futebol e que era um mentiroso inveterado, para não dizer patológico.
Apesar disso, pelo cargo ao qual diz não ter apego, engoliu a sujeira e ainda negociou empregos para seus correligionários.
A mensagem do vice-presidente nada mais é do que o esperneio final de um desesperado, sem rumo, tentando salvar a própria pele e a de seu grupo político.
Diante da anterior opção pelo insonso Ezabella, essa ala mantinha em Armando e Santoro — outro desmascarado — a esperança de exercer o poder sem a necessidade de bajular o presidente de plantão.

ÍNTEGRA DA NOTA OFICIAL DE ARMANDO MENDONÇA
À TORCIDA CORINTHIANA, AOS SÓCIOS, AOS CONSELHEIROS E A TODOS QUE RESPEITAM A HISTÓRIA DO SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA
Manifesto-me em respeito à minha história, à minha família, aos conselheiros, aos associados, aos colaboradores do clube e, sobretudo, à torcida corinthiana. Faço isso com serenidade, mas também com a firmeza necessária de quem não pode permitir que sua honra seja atingida por narrativas incompletas, acusações precipitadas, mal-intencionadas e interpretações que não correspondem à verdade.
Sou advogado há mais de vinte anos. Mas, antes de tudo, sou filho, irmão, pai, corinthiano e tenho uma história construída muito antes de qualquer cargo. Uma história que jamais colocaria em risco por qualquer vantagem indevida.
Fico muito preocupado em ver que uma acusação dessa gravidade, baseada em um trabalho que, embora tecnicamente irretocável, não afirma que houve qualquer desvio de materiais por mim, distribuída no final do expediente de uma quarta-feira, às vésperas de um feriado prolongado, produziu efeito concreto: minha reputação ficou exposta por dias à interpretação pública, minha família sofreu todos esses dias, enquanto a defesa, pelo próprio funcionamento da Justiça, somente poderia atuar adequadamente após a regular distribuição e tramitação do feito.
Isso é grave. Não apenas pelo dano pessoal, mas pelo método. Quando uma acusação passa a circular antes do processo, a reputação de uma pessoa fica exposta antes mesmo que ela possa exercer plenamente sua defesa.
Reputação não é vaidade. É patrimônio moral. É aquilo que se constrói ao longo de uma vida e que deve ser defendido com serenidade, firmeza e verdade.
Por isso, considero meu dever esclarecer os fatos, reafirmar minha tranquilidade de consciência e deixar claro que jamais pratiquei qualquer ato ilícito contra o Sport Club Corinthians Paulista.
Por isso, afirmo com absoluta clareza: nunca desviei qualquer material do Sport Club Corinthians Paulista.
Não corresponde à verdade a narrativa de que eu teria me apropriado de 131 materiais do clube. A acusação sequer teve o cuidado de verificar que, desses 131 materiais, 62 itens sequer saíram do Corinthians; 6 itens foram destinados para o segurança de confiança do presidente Osmar, Fernando; e 2 malas foram destinadas para Leonardo Pantaleão. Há equívocos que já foram explicados e continuarão sendo esclarecidos. O próprio documento interno produzido no âmbito do Corinthians não afirma que eu tenha praticado desvio, apropriação ou qualquer conduta dessa natureza. Também o inquérito policial não conclui pela existência de desvio de materiais por minha parte.
Infelizmente, faltou firmeza da instituição, por meio de seu presidente, em esclarecer esse ponto para a torcida, sócios e conselheiros. Faltou vontade, de quem poderia fazê-lo, para encerrar de vez uma narrativa falsa, injusta e destrutiva. Uma acusação dessa merece uma posição do clube para toda a nação e não apenas em roda de sócios, amigos e alguns torcedores.
Ninguém que conheça minimamente minha trajetória pode acreditar, de boa-fé, que eu colocaria em risco minha vida, minha família, minha profissão, minha reputação e meu nome por materiais do clube. O Corinthians é grande demais para ser tratado com leviandade. E minha história é séria demais para ser reduzida a uma acusação que não corresponde à verdade.
Também é preciso dizer, com serenidade e firmeza, que não se pode atribuir a mim suposta “gestão temerária” sobre área que não estava sob minha responsabilidade direta e que não integrava minhas atribuições institucionais. A vice-presidência que exerço não se confundia com gestão operacional de almoxarifado, controle de estoque, distribuição ou baixa de materiais esportivos.
Responsabilidade não se presume por aproximação, conveniência narrativa ou necessidade de encontrar um nome.
Responsabilidade exige fato, atribuição, competência, conduta e prova.
Sempre defendi uma apuração profissional, séria, independente e tecnicamente responsável. Pedi que o Corinthians contratasse empresa especializada para realizar esse trabalho. Também pedi auditoria contábil. Meus pedidos não foram atendidos pelo presidente, que, de direito e de fato, é responsável pelo SCCP. Por conta disso, pedi, por conta própria, por meio de empresa renomada e especializada, que fosse analisado o trabalho que o presidente pediu para quem não tinha capacitação técnica para fazer. A conclusão é desastrosa. Chega de amadorismo. Chega de tratar o Corinthians com tanto desrespeito.
Repudio, ainda, a divulgação seletiva de trechos de supostas conversas privadas, gravadas clandestinamente, ocorridas há muitos meses, em setembro de 2025, e trazidas a público apenas agora, sem que se conheça sua integralidade, seu contexto, sua cadeia de custódia e sua validação técnica. Conversas privadas, quando registradas sem ciência dos envolvidos, fragmentadas e apresentadas em recortes convenientes, podem servir menos à verdade e mais à destruição de reputações.
Se alguém, há mais de oito meses, registrou uma conversa privada às escondidas, guardou esse material, selecionou trechos e somente agora o trouxe a público, esse método, por si só, revela muito sobre sua real intenção. Quem busca a verdade procura esclarecer os fatos no momento próprio. Quem grava, guarda, recorta e divulga apenas quando isso se torna politicamente conveniente não contribui para a Justiça. Contribui para o linchamento moral.
Não temo a verdade. Nunca temi. O que me preocupa é que este episódio já deixou de ser apenas sobre mim. Ele passou a representar uma reflexão maior: se pessoas honestas, profissionais qualificados, empresários, conselheiros e associados que desejam ajudar o Corinthians passarem a acreditar que qualquer divergência política pode resultar em campanhas de desgaste, acusações precipitadas e julgamentos públicos antes mesmo da produção de provas, quem continuará disposto a servir ao clube? Os Romeus, Leonardos, Marcelos da vida?
Fazer o bom combate é difícil quando alguns escolhem brigar na lama. Eu não me sujeito a esse tipo de disputa. Não descerei ao nível de quem prefere a insinuação à prova, o recorte ao contexto, a lama ao debate leal.
Em momentos difíceis, fiz escolhas difíceis. Ao levar à tona a gravidade dos fatos envolvendo o caso Vai de Bet, sei que fiz inimigos. Quando tomei conhecimento daqueles fatos, minha consciência não me permitiu outro caminho. Rompi imediatamente.
Cada pessoa sabe o tempo de suas decisões e o peso de seus silêncios. Não me cabe julgar a consciência de ninguém. Mas é importante lembrar que nem todos se posicionaram no mesmo momento. Houve quem demorasse, houve quem permanecesse próximo e houve até quem aceitasse funções depois de fatos graves já conhecidos. Hoje, alguns falam em moralidade como se sempre tivessem estado no mesmo lugar desde o primeiro instante.
Digo isso sem arrogância e sem pretensão de superioridade. Apenas registro um fato: minha posição foi tomada quando precisava ser tomada, não quando passou a ser conveniente tomá-la. E sei que hoje pago um preço caro por isso.
A política faz parte da vida em sociedade e dos clubes associativos. O problema não está na política em si, mas na forma como ela é praticada. A boa política constrói, aproxima, dialoga e serve. A má política destrói, generaliza, acusa e tenta vencer pelo desgaste moral do outro.
O Corinthians não pode ser usado como trampolim para interesses pessoais, projetos externos, disputas de poder ou narrativas que reduzam sua grandeza institucional.
Nunca acreditei em salvadores individuais. Nem dentro, nem fora do clube. O Corinthians não será salvo por uma pessoa, por um grupo ou por uma narrativa. A saída para o Corinthians será sempre coletiva: dirigentes, conselheiros, associados, profissionais e torcedores trabalhando com responsabilidade, transparência e respeito.
Minha luta por aquilo que considero correto continuará. Não aceitarei que este tipo de jogo, cujo objetivo é afastar pessoas que podem ajudar o Corinthians, prevaleça. Quem tem reputação a preservar tem muito mais a perder do que a ganhar ao se expor. Mas há momentos em que o silêncio pode ser confundido com conformismo, e a serenidade precisa vir acompanhada de clareza.
Tenho absoluta convicção de que ficará demonstrado outra vez que nunca cometi qualquer ilícito contra o Sport Club Corinthians Paulista.
E tenho, acima de tudo, a consciência tranquila de quem pode olhar para sua família, para sua história, para os conselheiros e para a torcida corinthiana e afirmar: jamais colocaria meu nome, minha vida e minha honra em jogo por qualquer vantagem indevida, muito menos por materiais de um clube que sempre procurei respeitar.
Por coerência, em respeito ao Corinthians, aos corinthianos, aos meus amigos de Conselho, aos colaboradores do clube e à minha família, informo que solicitei perante os órgãos internos minha licença do cargo de 2º vice-presidente do Sport Club Corinthians Paulista.
Não por reconhecer qualquer culpa. Porque não há culpa a reconhecer. Não por medo. Porque não tenho nada a temer. Mas porque acredito que, em determinados momentos, servir ao Corinthians significa colocar o clube acima de si mesmo.
Não tenho apego ao cargo. Tenho apego aos meus princípios e aos meus ideais.
Ao Corinthians devo respeito. À minha família devo proteção. À minha consciência devo fidelidade. E é com ela absolutamente tranquila que sigo adiante.
A vida exige coragem. Para servir ao Corinthians, é preciso ter coragem. E eu não estarei ao lado de quem tenha medo de arapongas. Para liderar essa nação, há necessidade de firmeza e convicção.
São Paulo, 08 de junho de 2026.
Armando Mendonça

