De volta à corrida nuclear

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Os controles imperfeitos mas funcionais da guerra fria se dissolvem numa atmosfera de instabilidade, desconfiança e chantagem. A nova ordem tende a ser mais nuclear, mais opaca e mais instável

Sem cerimônia, sem tratados, sem inspeções, o mundo cruza mais uma das linhas vermelhas traçadas no pós-guerra. A partir de hoje, pela primeira vez em meio século, Estados Unidos e Rússia já não estarão sujeitos a nenhum pacto que limite, verifique ou fiscalize seus arsenais nucleares. O tratado New Start, derradeiro remanescente da arquitetura de controle construída na guerra fria, expira sem sucessor – e, com ele, os vestígios de uma engrenagem mínima capaz de conter a escalada entre grandes potências.

A ordem nuclear erguida a partir dos anos 1960 se sustentava sobre três pilares: limitação mútua, verificação recíproca e dissuasão estável. Todos estão ruindo. Os principais tratados foram abandonados ou esvaziados nos últimos 20 anos. A confiança entre as potências evaporou. A tecnologia multiplicou o risco de erro e de desestabilização. E agora não há sequer a ficção de uma regra comum.

Ao contrário da guerra fria, o eixo da instabilidade já não é bipolar. A Rússia de Vladimir Putin aposta na chantagem nuclear tática, no uso político de novas ogivas e em armas projetadas para escapar a qualquer sistema de controle. Sob o governo de Donald Trump, o velho dilema interno dos Estados Unidos entre evitar o colapso do regime multilateral ou manter a primazia militar americana é solucionado em favor da última opção. É sobretudo a China o ator que reconfigura o jogo. Recusando qualquer tratado, Pequim dobrou seu arsenal em cinco anos, desenvolve plataformas móveis e subterrâneas e desafia a lógica da paridade regulada. No xadrez da dissuasão, o tripé entrou em colapso.

O resultado é uma corrida armamentista assimétrica, opaca e fragmentada. Não há mais convergência quanto ao que deve ser proibido, limitado ou monitorado. Cada potência persegue sua própria doutrina: supremacia convencional, dissuasão escalatória, neutralização tecnológica. A lógica da estabilidade foi substituída pela lógica da vantagem. E a corrida deixou de ser apenas quantitativa – mais ogivas, mais silos – para se tornar qualitativa: inteligência artificial, mísseis hipersônicos, drones submarinos e sistemas furtivos. Nesse cenário, a transparência deixa de ser um fator de contenção e passa a ser um risco estratégico.

O impacto vai além das superpotências. O Tratado de Não Proliferação perdeu credibilidade e eficácia. O Irã se tornou um Estado limítrofe. Com apoio da China, a Arábia Saudita desenvolve sua infraestrutura com potencial dual (civil e militar). A Coreia do Norte acelera sua produção. Diante disso, o debate ressurgiu no Japão, Coreia do Sul, Turquia e Europa. Potências regionais como o Brasil também precisam repensar profundamente sua estratégia nuclear numa era em que o cenário tradicional de um clube fechado de potências sob controle mútuo cede lugar a um pluralismo atômico desregulado. Mais atores, menos freios. E mais zonas cinzentas: arsenais clandestinos, ambiguidades estratégicas, ameaças veladas.

A corrida nuclear voltou, não com um estrondo, mas com um gemido – e sob uma lógica pouco familiar. A dissuasão clássica exigia clareza de doutrina, canais de comunicação e reconhecimento mútuo de interesses vitais. Hoje há novos riscos: blefe descontrolado, sabotagem por terceiros, erro de interpretação, uso tático. A bomba voltou ao centro do tabuleiro. Mas seu papel é menos previsível, e sua utilização, mais concebível. A barra foi rebaixada.

Mesmo que a arquitetura do passado seja irrecuperável, é possível erguer mecanismos mínimos de coordenação e freios localizados: tratados sobre armas emergentes, zonas de exclusão, protocolos de alerta. Porém o custo da inação cresce a cada ciclo tecnológico.

A trégua nuclear pode se provar uma anomalia histórica, mas não foi obra do acaso, e sim de vontade política, liderança estratégica e constrangimentos institucionais. Esses elementos parecem se dissipar. O novo cenário tende a ser menos modelado pela força do Direito e mais pela força dos fatos. As regras do pós-guerra estão desmoronando. A questão é se o mundo conseguirá erguer novas antes da próxima crise.

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