Quem será o Jesse Owens de Trump?

Da FOLHA

Por ITALO NOGUEIRA

  • Copa e Olimpíadas nos EUA lembram sombra fascista nas competições antes da Segunda Guerra
  • Acordos preveem que nenhum atleta seja impedido de entrar no país-sede

Antes da Segunda Guerra Mundial, os fascismos italiano e alemão tiveram a oportunidade de usar em sequência a Copa do Mundo, de 1934, e as Olimpíadas, de 1936, como uma máquina de propaganda.

A Copa estava apenas em sua segunda edição e longe da relevância atual quando foi entregue a Mussolini. Os Jogos Olímpicos já amadureciam e Hitler, inicialmente crítico do universalismo proposto pelas competições, vislumbrou como o evento poderia ser um palco para o regime nazista.

A história não autoriza previsões. Muito menos o cenário internacional atual. Mas se o enquadramento do presidente dos EUA, Donald Trumpcomo um fascista é discutido por especialistas, é legítimo colocar lado a lado as sequências de eventos esportivos da década de 1930 e da atual, com a Copa-2026 sediada principalmente pelos Estados Unidos, junto com México e Canadá, e as Olimpíadas de Los Angeles-2028.

De lá para cá, os donos dos dois eventos, Fifa e COI, enfrentaram um mundo turbulento enquanto se tornavam uma máquina de fazer dinheiro.

A primeira nunca se preocupou com o cenário político de suas sedes e participantes. Gianni Infantino elevou essa régua ao bajular Trump com um “Prêmio da Paz”, inventado para suprir as frustrações do anfitrião que não recebeu o desejado Nobel da Paz.

Já o COI, longe da pureza, buscou tentar manter as aparências do universalismo. Deixou, por exemplo, a África do Sul de fora das Olimpíadas por 20 anos enquanto vigorava o regime do apartheid. Hoje, a Rússia está banida pela invasão à Ucrânia.

É improvável uma punição semelhante aos EUA pelo ataque à Venezuela. O COI provavelmente vai se desdobrar em desculpas para não trocar uma sede a três anos dos Jogos.

Os acordos para a Copa e as Olimpíadas preveem que nenhum atleta seja impedido de entrar no país-sede. A princípio, isso incluirá todos os competidores de nações incluídas na lista de Trump. O mesmo não vale para torcedores ou mesmo imigrantes que se arrisquem nas arquibancadas dos dois eventos sob os olhos do temido ICE.

Resta ao mundo esperar nas pistas ou nos campos um novo Jesse Owens, o atleta negro norte-americano que constrangeu Hitler no estádio olímpico de Berlim.

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