Se quiser viver, não beba

Da FOLHA
Por NATALIA BEAUTY
- Bar que compra bebida de origem duvidosa não está sendo enganado, está escolhendo ignorar o risco
- É preciso punir com seriedade: mais fiscalização diária, com método, e menos operações midiáticas
Todo empresário sabe o peso de um boleto, o sufoco da folha de pagamento e a tentação do atalho, além da sedução da “oportunidade imperdível” que chega por fora. Mas sabemos, acima de tudo, que o preço das escolhas erradas não é pequeno. No fim do dia, cada gestor precisa decidir se quer pagar o custo de fazer o certo ou conviver com a consciência de ter escolhido o caminho torto.
É por isso que preciso dizer, sem rodeios: se quiser viver, não beba onde a procedência é duvidosa.
Entre o “só hoje” e o pronto-socorro, tem gente lucrando com veneno. Quando alguém mistura metanol em bebida alcoólica para cortar custos, não se trata de “adulteração”, é crime, e um crime que cega, destrói famílias e mata. Não importa o CEP: Pode acontecer em bar de bairro nobre, boteco de esquina, festa badalada ou mesa de plástico, a tragédia não escolhe endereço.
O metanol não tem cheiro, não tem gosto, e quando os sintomas aparecem, já é tarde. Não é erro, é roleta-russa. Não é acidente, é assassinato com rótulo e etiqueta de desconto.
E aí ficam as perguntas: quem comprou? Quem assinou a nota? Quem fingiu que não viu? No meio do caminho, todo mundo lucrou um pouco com a tragédia alheia. A economia do crime é organizada, tem tabela, CNPJ e logística. Do outro lado, o Estado coleciona notas de repúdio, interdições ocasionais e discursos que não salvam ninguém.
Dono de bar que compra bebida “famosa” de origem duvidosa, sem distribuidor oficial, não está sendo “enganado”, está escolhendo ignorar o risco, está brincando com a vida do cliente. Compliance zero. Cadeia de custódia existe para isso: nota fiscal, lote, lacre, distribuidor homologado. Quem não cumpre tem que fechar e responder criminalmente.
Nas plataformas digitais, a farsa continua: álcool “premium” à venda sem licença, sem controle. Tecnologia não falta para encontrar os culpados. O que falta é vontade política. É totalmente possível cruzar nota fiscal com QR Code, mapear lote, rastrear origem química. Dá para digitalizar a carta de bebidas e exigir transparência real. O que falta é vergonha na cara.
Na ponta, jovens bebem veneno achando que estão comprando status. Transformaram o consumo em story e esqueceram que, em 2025, uma garrafa falsificada pode matar mais rápido que uma arma. Quem educa precisa dizer com todas as letras: álcool é droga legalizada e, com metanol, é veneno ativo. Se o bar não mostra procedência, levante e vá embora. Se está barato demais, é porque sua vida virou a mercadoria.
A polícia já fez apreensões. Isso é o mínimo. Agora falta punir com seriedade: prisão em regime fechado, cassação de alvará, responsabilização de sócios e donos, fiscalização diária com método, e não operação midiática de fim de semana.
Querem chamar de exagero? Que chamem. Prefiro o exagero à condolência. O setor sério precisa liderar: distribuidor homologado, QR Code em cada garrafa, carta pública de fornecedores, seguro obrigatório, treinamento de equipe e protocolo de emergência. Quem ama o cliente protege.
Repito: se quiser viver, não beba onde a origem é opaca. Enquanto a cadeia estiver podre, a sobriedade é o único escudo. Saúde não é um brinde, é um ato político, um gesto de sobrevivência e resistência.
