O segredo da Volkswagen

Do THE WASHINGTON POST

Por TERRENCE MCCOY e MARINA DIAS

A história esqueceu os horrores sofridos pelos trabalhadores na enorme fazenda de gado da montadora na Amazônia brasileira. Mas um padre registrou tudo

SANTANA DO ARAGUAIA, Brasil

José Ribamar Viana Nunes, de 60 anos, disse que ele e um grupo de amigos de infância foram atraídos para a fazenda da Volkswagen por um recrutador de mão de obra que lhes prometeu um bom salário e uma chance de jogar futebol.

Quando Ricardo Rezende Figueira viu a manchete, sentiu um arrepio percorrê-lo. Era sobre a Volkswagen. A empresa disse que finalmente estava pronta para expiar seu passado. Depois de admitir que sua equipe havia cooperado com a ditadura militar do Brasil para direcionar os trabalhadores para perseguição política, a montadora começou a negociar reparações.

Rezende leu até o final do artigo, depois sentou-se por um momento, quieto.

A história não dizia nada sobre a fazenda de gado Volkswagen. Nem uma palavra sobre a floresta amazônica, onde a liderança da empresa já presidiu uma propriedade com quase o dobro do tamanho da cidade de Nova York. Às vezes, parecia a Rezende que ninguém ainda se lembrava do que havia acontecido lá – o trabalho forçado e a privação, a tortura e a violência, o engano e o horror. Mas Rezende fez. Ele gravou tudo.

Talvez não fosse tarde demais, ele se lembra de ter pensado.

Era o início de 2019. Rezende saiu de seu pequeno apartamento e atravessou a rua até a universidade federal do Rio de Janeiro, onde lecionava direitos humanos e coordena uma comissão para estudar o trabalho escravo moderno. Aos 73 anos, de cabelos grisalhos e óculos, ele não se parecia mais com o padre católico desgrenhado que liderou uma investigação sobre supostas atrocidades na Fazenda Vale do Rio Cristalino, de propriedade de uma subsidiária homônima da Volkswagen Brasil. Mas as evidências documentais que ele reuniu durante esse tempo ainda estavam com ele, dentro de um arquivo. Ele ficou lá por anos.

Rezende ligou para Rafael Garcia, que processa casos de trabalho escravo para o Ministério do Trabalho do Brasil. “Você viu que a Volks está reconhecendo o que fez?” Rezende se lembra de ter perguntado a ele. Talvez, continuou ele, fosse hora de investigar a fazenda de gado Volkswagen também.

A estrada que leva à antiga fazenda de gado Volkswagen, em Santana do Araguaia, Brasil.

Garcia não sabia do que estava falando. Ele não tinha ideia de que a Volkswagen havia participado de um dos primeiros grandes experimentos de globalização do mundo há meio século, quando corporações multinacionais se associaram ao regime autoritário do Brasil para desenvolver a Amazônia – pressionando trabalhadores pobres e inconscientes a servir na distante floresta tropical. Mas Garcia confiava no padre idoso e admirava seu trabalho. Ele pediu a Rezende seus arquivos. Eles tinham mais de 1.000 páginas; Rezende levou dias para fotocopiá-los. Mas no final de fevereiro de 2019, Garcia estava folheando o dossiê.

Uma fotografia de trabalhadores da fazenda de gado Volkswagen

O advogado lembrou-se de seu pulso acelerando enquanto examinava os registros. Ele nunca tinha visto um tesouro tão rico tão cuidadosamente coletado e preservado. O escopo era enorme. Houve testemunhos detalhados de dezenas de trabalhadores e suas famílias.

“Estávamos dentro de uma prisão”, disse um trabalhador que escapou.

“Nunca mais ouvi falar do meu filho”, disse a mãe de um trabalhador que não tinha.

Garcia ligou para sua colega, Christiane Nogueira. “Ei, Chris”, ele se lembra de ter dito com pressa, “você tem que ver o que há nesses arquivos”.

O padre e pesquisador de direitos humanos Ricardo Rezende Figueira, de 73 anos, passou anos documentando os supostos abusos na fazenda Volkswagen

Os papéis estavam amarelados pelo tempo e pela umidade. A impressão era pequena e desbotada, renderizada pela máquina de escrever ou pela caligrafia irregular de Rezende. Mas as histórias eram claras e consistentes.

O dossiê identificou 69 supostas vítimas, com depoimentos de 1977 a 1987. Havia declarações autenticadas, declarações policiais, documentos judiciais e relatórios de legisladores, além de recortes de imprensa de décadas em português, francês e alemão.

Página após página, os documentos contavam como os recrutadores de mão de obra contratados pela Vale do Rio Cristalino Co., subsidiária da Volkswagen Brasil, atraíram centenas de trabalhadores sazonais e informais para a propriedade amazônica em Santana do Araguaia com a promessa de bons salários e uma vida melhor. Mas uma vez na fazenda, disseram os trabalhadores, eles ficaram presos – geograficamente isolados, enredados por dívidas, adoecidos pela malária e forçados a trabalhar sob ameaça de violência. Seu trabalho era destruir a floresta e abrir espaço para o gado.

“Trabalhávamos de segunda a segunda-feira, muitas vezes sem comer”, disse um homem. “Eles prometeram nos matar.”

Raimundo Batista de Souza, 55, contou que ficou preso na fazenda junto com seus dois irmãos, Raul e Juldemar

Os empreiteiros de mão de obra, conhecidos como Chicô e Abilão, estavam entre as figuras mais notórias e brutais da fronteira amazônica, de acordo com registros contemporâneos. Sob seu comando estava um quadro armado de “inspetores” que usavam todos os meios necessários, alegam os registros, para forçar os homens a trabalhar.

“Eles pisaram [em um trabalhador], quebraram seus dentes, o levaram para o hospital e o colocaram de volta para trabalhar na selva”, disse José Camilo da Silva, 29, de Anápolis, Goiás.

“Eles amarraram um homem e o espancaram na floresta, deixando-o nu lá”, alegou um relato de 1983 de três homens que conseguiram escapar.

“Eles têm uma caverna onde matam pessoas e jogam os corpos”, disse Edivan Dias Alencar, um recruta de Porto Nacional, Tocantins.

A Volkswagen do Brasil não respondeu a um pedido de entrevista para este artigo. Em uma declaração ao The Washington Post, a empresa disse que “refuta categoricamente e rejeita todas as alegações” de abusos na Fazenda Vale do Rio Cristalino e “continua comprometida com a busca da justiça”.

A sede da Volkswagen na Alemanha não respondeu aos pedidos de comentários.

No início de março, Rezende concedeu ao Post acesso aos seus arquivos. Os repórteres passaram semanas revisando os arquivos, bem como registros contemporâneos encontrados em documentos judiciais e nos arquivos nacionais do Brasil. O Post também entrevistou 29 pessoas com conhecimento do rancho Volkswagen – 16 trabalhavam na propriedade e nove alegaram ter sido escravizados.

Durante duas viagens ao sudeste da Amazônia, incluindo uma visita aos restos da fazenda, o Post conseguiu encontrar trabalhadores que nunca haviam falado com as autoridades. Suas histórias refletiam de perto as de outros sobreviventes. Um homem, Valdeci Alves Fumeiro, 74, disse que foi ao rancho em busca de um amante perdido e foi pressionado a prestar serviço não remunerado. Ele disse que passou sete anos na propriedade, nunca teve permissão para sair, mesmo quando caiu em cima de arame farpado e rasgou o rosto. Em vez de ser levado para o hospital, disse ele, foi costurado na fazenda e colocado de volta ao trabalho.

Hoje ele mora sozinho no final de um caminho de terra nas colinas enevoadas do antigo rancho da Volkswagen. Sua casa é estéril. Seu rosto é marcado por cicatrizes.

“Tenho pesadelos sobre o que passei até hoje”, disse ele.

Os registros e testemunhos oferecem um retrato devastador – não apenas do que aconteceu na propriedade, mas de um sistema legal e político que incentivou os supostos abusos. As autoridades estaduais afirmaram a existência de trabalho forçado na fazenda quatro vezes, mostram os registros. Mas o Post não conseguiu encontrar nenhum registro de qualquer trabalhador sendo libertado ou qualquer um dos supostos algozes sendo acusado de um crime.

Só agora, décadas depois, chegou um acerto de contas.


Para Garcia, ler o dossiê de Rezende foi como cair em um capítulo perdido e violento da conquista da Amazônia pelo Brasil. A ditadura militar, que governou o país de 1964 a 1985, construiu rodovias, incentivou a migração em massa e ofereceu incentivos fiscais e fundos públicos para empresas nacionais e multinacionais, esperando que investissem no que parecia na época um empreendimento quixotesco: a pecuária na floresta tropical mais proibida do mundo.

A Volkswagen do Brasil, então a maior montadora da América Latina, aceitou o desafio. No indomável município de Santana do Araguaia, a Vale do Rio Cristalino Co. – subsidiária que liderava o presidente da Volkswagen Brasil, Wolfgang Sauer, e o diretor de recursos humanos, Admon Ganem – obteve uma grande parcela de terra. Executivos na Alemanha imaginaram um rebanho de mais de 100.000 cabeças de gado e uma resposta para a fome mundial.

“Este mundo não precisa apenas de carros”, declarou o presidente da Volkswagen, Rudolf Leiding, em 1974, “mas também de carne”.

As florestas do sudeste do Pará foram refeitas em pouco tempo. Para derrubar as árvores, as empresas contrataram recrutadores de mão de obra locais – chamados de “gatos” – para encontrar trabalhadores informais, transportá-los para a selva e colocar um facão em suas mãos.

Muitos dos atraídos para a área foram submetidos ao que a lei brasileira define como escravidão moderna, caracterizada por trabalho forçado, condições “degradantes” e liberdade de movimento restrita. O sociólogo brasileiro José de Souza Martins estimou o número de vítimas em 85.000, “no mínimo”. Outras estimativas são muito mais altas. Como a região era tão remota e muitos dos trabalhadores eram itinerantes e analfabetos, ninguém sabe ao certo. Grande parte da história provavelmente nunca será contada.

Um Volkswagen Fusca 1985 é sorteado em abril durante uma feira agrícola perto da antiga fazenda de gado da Volkswagen

Voltando às décadas perdidas estava o dossiê de Rezende.

Garcia e Nogueira decidiram abrir um inquérito, lançando uma busca multiestadual para encontrar os trabalhadores perdidos e localizar arquivos adicionais. Em dezembro, seus esforços culminaram em um processo federal contra a Volkswagen do Brasil que alegava “centenas” de vítimas. Durante os anos de operação da fazenda, de 1974 a 1986, a Volkswagen explorou o trabalho escravo e o tráfico de pessoas em uma escala “generalizada e sistêmica”, disseram os procuradores federais. Como os supostos abusos ocorreram em uma propriedade de propriedade de uma subsidiária da Volkswagen, os promotores afirmam que a empresa-mãe tem a responsabilidade final.

Em sua declaração ao The Post, a Volkswagen Brasil negou as acusações e disse que foi um impulsionador do “desenvolvimento econômico e social” do país. A empresa disse que “defendeu consistentemente os princípios da dignidade humana e cumpre rigorosamente todas as leis e regulamentos trabalhistas aplicáveis”.

Em documentos judiciais, os advogados da Volkswagen caracterizaram o papel da empresa como o de acionista de uma empresa independente que contratou outras empresas para desenvolver a propriedade. O governo do Brasil está injustamente processando uma parte não envolvida, afirma a empresa, enquanto dá um passe livre para os recrutadores de mão de obra que supervisionaram os campos de desmatamento.

“Em suma, nenhuma responsabilidade pode ser atribuída à Volkswagen [Brasil]”, escreveram os advogados da empresa em resposta à queixa do governo, que aguarda julgamento em um tribunal federal do trabalho na Amazônia.

Um dos recrutadores de mão de obra contratado, Chicô, cujo nome completo era Francisco Andrade Chagas, morreu em 2014, de acordo com um registro brasileiro de autos de morte. O outro recrutador notório, Abilão, cujo nome completo é Abílio Dias Araujo, 82, se recusou a responder às perguntas do The Post. “Sou um homem velho”, disse ele. “Não me lembro de nada.”

Relatórios policiais e registros desclassificados mostram que os homens foram acusados de usar “trabalho escravo” pelo menos três vezes, em junho de 1983 no rancho Volkswagen e duas vezes em setembro de 1984 em outras fazendas da área. “O fato existe”, disse um relatório do serviço de inteligência brasileiro. A polícia investigou Chicô novamente em julho de 1986, nas proximidades de São Félix do Xingu. Mas o Post não conseguiu encontrar nenhum registro de acusações criminais contra nenhum dos homens.

Em uma região onde a impunidade é muitas vezes a regra, o caso do governo contra a Volkswagen marca a primeira vez que o Brasil procura responsabilizar alguém pelo sofrimento humano incorrido em sua corrida para desenvolver a Amazônia. O caso também reacendeu uma disputa de décadas entre dois adversários familiares.

De um lado, a segunda maior montadora do mundo.

Do outro, um padre católico.

Rezende em seu apartamento no Rio de Janeiro

Ricardo Rezende não é um homem comum. Ele não usa um colarinho clerical. Ele não mora em uma casa paroquial. Ele dedicou grande parte de sua vida profissional a estudar não religião, mas escravidão moderna, escrevendo quatro livros animados pelas mesmas questões urgentes e investigativas: como tantos puderam ter sido escravizados na Amazônia moderna? E como isso foi mantido em segredo por tanto tempo?

“O número de vítimas que desapareceram é enorme”, disse ele, “e chocante”.

Alguns morreram nas fazendas e foram enterrados em cemitérios clandestinos, de acordo com descobertas de restos humanos. Outros tinham vergonha de voltar para casa “mais pobres do que haviam saído”, disse Rezende, e construíram novas vidas em outro lugar. Muitos mais, ele acredita, não se viam como vítimas, mas devedores. Eles nunca disseram uma palavra a ninguém.

Rezende dedicou sua vida a catalogar suas histórias, apesar de, ou talvez por causa, do que ele chama de “um defeito”. Ele sempre lutou com detalhes, com a lembrança de datas, nomes e números. A única maneira de funcionar, disse ele, primeiro no seminário, depois ao obter seu diploma de filosofia e, finalmente, após sua ordenação como padre, era escrever tudo. O hábito incutiu nele uma reverência permanente por documentos e registros escritos. As memórias desaparecem e se confundem, diz ele. Mas um documento deixa uma marca oficial. Pode ser contestado, mas não muda.

Em 1977, mudou-se para a região do Araguaia, no estado do Pará, e começou a trabalhar para a Comissão Pastoral da Terra, uma organização católica de direitos humanos. A igreja latino-americana estava sendo varrida por um novo credo chamado teologia da libertação, que exigia a emancipação das pessoas de todas as formas de opressão social e econômica. Seus convertidos estavam migrando para a Amazônia para defender os pobres rurais, e muitos assumiram cargos na comissão, onde Rezende logo se tornou diretor de campo no município de Conceição do Araguaia.

Rezende ministra aula sobre direitos humanos no serviço social na universidade federal do Rio de Janeiro

Rezende colocou blocos de notas ao lado de cada telefone do escritório para que fosse feito um registro de todas as chamadas recebidas. Se uma violação de direitos humanos relatada parecesse legítima, ele convidava a suposta vítima ao escritório para prestar depoimento – sempre na presença de testemunhas. Se as alegações fossem particularmente flagrantes, ele levaria o trabalhador a um cartório ou delegacia de polícia para prestar contas oficialmente. Quase nenhum dos casos resultou em uma investigação. Mas um disco havia sido feito, ele disse a si mesmo, “e talvez um dia pudéssemos usá-lo”.

Uma delegação de observadores – incluindo Ricardo Rezende Figueira, ao centro de camiseta listrada – ouve Paulo Dutra, um alto funcionário da Volkswagen Brasil, no rancho da montadora em 1983. (Clovis Cranchi/Estadão Conteúdo)

Foi nessa época que ele começou a ouvir falar da Volkswagen na Amazônia. A primeira reclamação, em 1977, veio do sindicalista Natal Viana Ribeiro, que disse ter sido negado o pagamento e ameaçado pela administração da fazenda. A fazenda era patrulhada por “pistoleiros profissionais” que aterrorizavam os trabalhadores, alegou um sindicato estadual um mês depois. Em 1981, Rezende realizou uma de suas primeiras entrevistas com um trabalhador foragido, Edivan Dias Alencar.

“Um homem tentou fugir e foi pego por Chicô”, disse o trabalhador a Rezende. “Chicô bateu nele com uma trave.”

“Vi muitos trabalhadores sendo espancados por Chicô e sua quadrilha”, lembrou Alencar em uma entrevista recente ao The Post, e “muitos desses trabalhadores desapareceram”. Um dia, disse ele, Chicô e seus companheiros gatos atearam fogo a um pedaço de floresta onde os homens trabalhavam. Muitos, ele acreditava, foram queimados vivos.

Rezende terminou seu relatório e, colocando a alegação de Alencar junto com as demais, iniciou o dossiê que guardaria pelas próximas quatro décadas.

As ruínas de um antigo posto de controle de segurança na antiga fazenda de gado Volkswagen

A cada ano que passava, a preocupação do padre com o rancho Volkswagen se aprofundava. Ele fez cronogramas e esboçou diagramas de sua estrutura organizacional em suas anotações. Cada entrevista preencheu mais espaços em branco.

A propriedade operava de acordo com uma hierarquia social rígida. Os executivos dormiam em casas opulentas e bem ventiladas. Os funcionários, que incluíam motoristas, cozinheiros e pastores, moravam perto da sede da fazenda, onde as mercadorias eram vendidas a preços com desconto, e seus filhos frequentavam a Escola Wolfgang Sauer, em homenagem ao presidente da Volkswagen Brasil. Na floresta, a dezenas de quilômetros de distância, trabalhadores informais dormiam sob lençóis plásticos, bebiam água não tratada e viviam sob a vigilância de guardas armados.

Quase todos os trabalhadores vinham de aldeias provinciais, onde os recrutadores haviam prometido bons salários e emprestado dinheiro a homens que nunca se cansaram dele. Mas depois de serem transportados para o rancho remoto e passarem por um posto de controle armado, os trabalhadores souberam que haviam sido enganados. O pagamento era muito menor do que o anunciado. Eles nunca pagariam suas dívidas. E eles foram abandonados no meio da Amazônia. Muitos que tentaram fugir foram caçados e devolvidos, disseram os trabalhadores a Rezende.

“Eles fugiram pela floresta, porque se tivessem pegado a estrada, os gatos os teriam matado”, escreveu Rezende em julho de 1981 sobre a história de uma mulher. “Eles caminharam 155 quilômetros.”

Rezende se considerava um investigador cético. Ele sabia que estava sendo observado de perto. O governo militar o colocou sob vigilância e o rotulou de “subversivo” e “simpatizante” comunista, de acordo com relatórios desclassificados revisados pelo The Post. Rezende disse que sempre se preocupou com uma armadilha. E essas foram alegações extraordinárias envolvendo uma empresa poderosa colaborando com um regime autoritário.

Com o tempo, porém, ele passou a acreditar nas histórias. Eles se alinharam com outros abusos na região. Eles vieram de várias fontes não relacionadas. E eles eram tão semelhantes, até os mínimos detalhes.

Ainda assim, Rezende queria mais. Meses se passaram. Então, em abril de 1983, seu telefone tocou. Disseram-lhe que cinco jovens tinham acabado de fugir do rancho.

Rezende se lembra de desligar o telefone e fazer as malas. Ele reservou uma passagem de avião e rumou para o sul, para o estado do Mato Grosso.


O padre encontrou os homens na empobrecida aldeia de Canabrava do Norte, pouco mais do que um conjunto de casebres e algumas estradas de terra. Ele se lembra de ter ficado impressionado com o quão jovens eles eram. Um tinha apenas 18 anos, outro 17. Vários tinham acabado de entregar uma declaração por escrito de suas experiências, testemunhadas por 12 pessoas, mostram os registros, incluindo um prefeito local. Agora, diante de Rezende, eles contaram sua história novamente.

Os jovens — Pedro Valdo Pereira Vasconcelos, José Libório Desidério, Francisco Rezende de Souza, José Pereira de Souza e José Ribamar Viana Nunes — disseram que eram amigos íntimos de infância. Eles adoravam jogar futebol juntos. Um dia, no início de 1983, um amigo deles chamado Batista disse que estava procurando homens para trabalhar no rancho Volkswagen. Eles receberiam um bom salário, o suficiente para ajudar suas famílias. Melhor ainda, disse Batista, o rancho tinha um campo de futebol.

Os homens nunca jogaram uma partida em seus três meses no Rio Cristalino. Em vez disso, eles disseram, eles foram “vendidos” para Chicô, que os colocou sob a supervisão de quatro inspetores armados. Nos campos de trabalho da floresta, eles ficavam próximos uns dos outros. Um homem doente de malária morreu de desnutrição, eles contaram; outro foi baleado na perna; Uma mulher foi estuprada como punição pela tentativa de fuga de seu marido.

Certa vez, Vasconcelos encontrou um homem morto no meio da floresta. Ele foi amarrado e espancado. “Eu vi com meus próprios olhos”, disse ele ao The Post em março, sua memória do dia ainda viva.

Os homens disseram a Rezende que mais de 600 trabalhadores ainda estavam lá. Na esperança de que isso fosse suficiente para as autoridades, ele buscou uma reunião com o governador do estado do Pará, Jader Barbalho, mas foi rejeitado.

Então ele voou para Brasília ao lado de um dos jovens e levou a história para a mídia. Diante de um grupo de repórteres na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ele considerou suas palavras. Os acadêmicos debatem o que constitui escravidão. Alguns argumentaram que o termo se refere apenas à escravidão, na qual as pessoas são possuídas como propriedade privada. Mas os anos de Rezende na Amazônia lhe ensinaram que havia outras formas de escravidão humana, e ele agora dizia o que acreditava.

“Padre diz que há escravos na fazenda Volks”, dizia a manchete do dia seguinte, 7 de maio de 1983, no Correio Braziliense.

A mídia alemã logo publicou a história. A Volkswagen negou as acusações e, na tentativa de “lançar luz sobre a verdade”, de acordo com documentos da empresa analisados pelo The Post, convidou uma delegação de seus críticos para visitar a fazenda Rio Cristalino.

O contingente incluía Expedito Soares, deputado estadual de São Paulo, onde estavam localizadas as primeiras fábricas de automóveis da Volkswagen no Brasil, e Rezende.

Um rebanho de gado perto do antigo rancho Volkswagen

Chegando a Santana do Araguaia em julho de 1983, Rezende encontrou um vasto município coberto por floresta e sufocado pela pobreza. As estradas eram raras, a eletricidade mais rara e as conveniências modernas basicamente inexistentes. Mas por um caminho de terra não marcado, no terreno da fazenda Volkswagen, Rezende encontrou o que descreveu em um livro como um “paraíso na imensidão amazônica”. Havia jardins, boas estradas e casas de tijolos, um clube, um restaurante e uma piscina.

“Era algo como Brasília em miniatura”, lembrou.

A delegação foi recebida por dois homens brancos altos. Um deles era o gerente de relações públicas da Volkswagen, Paulo Dutra de Castro. E o outro, Friedrich Georg Brügger, era o diretor suíço do rancho. Ele elogiou seu compromisso com o serviço social, de acordo com um relato de um repórter que acompanhou a delegação, dizendo que os 328 funcionários diretos da fazenda e suas famílias estavam ótimos: comida com desconto, assistência médica gratuita, educação de qualidade.

Rezende começou a compilar sua pesquisa na fazenda Volkswagen na década de 1970, enquanto trabalhava para uma organização católica de direitos humanos na Amazônia

A delegação, disse Rezende, não foi autorizada a visitar os acampamentos de desmatamento. Um dia, porém, um de seus trabalhadores conseguiu encontrá-los. Ele foi direto para Rezende, de acordo com as anotações do padre, e tocou seu braço. A mão do homem estava quente de febre.

“Você tem que me salvar”, Rezende o gravou dizendo.

“Salvá-lo de quê?”

“Trabalho aqui há nove meses e não posso sair”, disse o homem. “Eu tenho malária e estou doente, padre … Eu quero ir embora.”

Rezende confrontou Brügger.

“Há um problema”, disse Rezende, de acordo com um relatório escrito por Soares, o legislador paulista. “Você está escondendo alguma coisa.”

“Este não é o meu problema”, disse Brügger, segundo Soares. Era problema dos gatos, ele disse a eles.

Em uma entrevista anos depois, Brügger afirmaria sua posição, dizendo que os funcionários da Volkswagen frequentemente verificavam os campos para monitorar o progresso do trabalho, mas que não era seu papel intervir. “A brutalidade que aconteceu, é claro, não me surpreende em nada; o brasileiro é uma pessoa ruim”, disse ele na entrevista de 2017 com a repórter alemã Stefanie Dodt. Ele culpou os trabalhadores por suas próprias dívidas e defendeu o suposto uso de violência pelos gatos: “Para manter uma multidão sob controle, eles precisam mostrar uma certa força”, disse ele.

O Post não conseguiu entrar em contato com Dutra ou Brügger para comentar.

Antes de sua delegação partir, Rezende e Soares encontraram um dos gatos. Era Abilão, dirigindo por uma estrada de terra em um caminhão Chevrolet branco, usando um colar de cruz e chapéu de cowboy. Questionado sobre as alegações de maus-tratos, o recrutador de mão de obra disse que não usou violência, mas “energia” para manter os trabalhadores na linha.

“Eles são cabras nojentas e que pegam meu dinheiro e depois desaparecem na floresta”, disse Abilão, segundo o relatório de Soares. Ele se gabou de que apenas 16 de seus 408 trabalhadores no rancho da Volkswagen haviam fugido com sucesso naquele ano, de acordo com o relato do jornal. Um dos fugitivos capturados estava sentado na traseira do caminhão de Abilão. Ele foi acusado de comer mais do que podia pagar, lembrou Soares em entrevista ao The Post.

“Devo dinheiro”, disse o trabalhador, segundo o jornal. “Eu tenho que pagar.”

A mão do ex-fazendeiro Raimundo Batista de Souza

Dias após a visita, a polícia do estado do Pará abriu uma investigação sobre a fazenda Volkswagen. Os policiais entrevistaram trabalhadores, Abilão e um de seus inspetores, e depois enviaram suas descobertas ao chefe de segurança do estado. Em agosto de 1983, o funcionário escreveu uma carta a Barbalho, governador do estado, que confirmava as alegações de Rezende: Os gatos “tratam seus trabalhadores contratados como escravos”.

Embora a Volkswagen não tenha aparecido “diretamente” culpada de “qualquer ação criminosa”, escreveu o chefe de segurança do Estado, Arnaldo Moraes Filho, “sua responsabilidade por omissão era clara, pois é impossível que tudo o que foi investigado dentro dos limites de sua propriedade tenha ocorrido sem qualquer conhecimento ou ação de sua parte”.

Semanas depois, o governador se reuniu com Rezende e vários bispos em sua residência na capital do estado, Belém. Na conversa, disse Rezende, Barbalho afirmou que o governo havia identificado trabalho escravo na fazenda Volkswagen. Ele disse que o caso iria para o Ministério Público, de acordo com O Liberal, o maior jornal do estado.

Mas um ano depois, nenhuma ação foi tomada. Quando as autoridades trabalhistas estaduais visitaram a propriedade do Rio Cristalino em agosto de 1984, de acordo com um relatório desclassificado revisado pelo The Post, pouco havia mudado. Os trabalhadores continuaram a labutar, endividados e mantidos contra sua vontade. A fazenda, disseram as autoridades trabalhistas, era “um instantâneo de todas as outras fazendas da região, onde trabalhadores humildes e analfabetos eram presas fáceis para recrutadores inescrupulosos de olho nos lucros, muitas vezes com a complacência dos proprietários das fazendas”.

Ainda assim, nenhuma ação visível foi tomada. Os promotores estaduais não puderam confirmar se Barbalho já havia alertado seu escritório sobre o rancho Volkswagen. Barbalho, agora senador federal, recusou um pedido de entrevista. Ele disse que não se lembrava do caso.

Em setembro de 1984, a polícia prendeu Abilão depois de encontrar 107 trabalhadores escravizados em duas fazendas não relacionadas em Santana do Araguaia, de acordo com um relatório desclassificado do serviço de inteligência brasileiro. O relatório disse que as autoridades também planejavam prender Chicô – descrito como “um dos principais aliciadores de trabalhadores manuais em todo o sul do Pará” – mas não conseguiram encontrá-lo.

Rezende se sentia cada vez mais impotente. Ele não sabia o que mais poderia fazer. Então ele colocou sua fé nos registros.

“Tínhamos provas”, disse ele. “Um dia, eu sabia que isso voltaria à tona.”

Depois de escapar do rancho da Volkswagen, Francisco Rezende de Souza, agora com 62 anos, caiu no alcoolismo, dizem seus amigos

Depois de semanas examinando os arquivos em 2019, o promotor Rafael Garcia acreditava que tinha os ingredientes de um caso sólido. Como coordenador nacional da divisão federal de trabalho escravo, ele sabia que tais processos se baseavam em grande parte em evidências documentais. E ele tinha as principais informações: datas, nomes, idades. Ele não estava preocupado com quanto tempo havia passado. No Brasil, o crime de “reduzir alguém a condições análogas à escravidão” não tem prescrição.

Mas os documentos não eram suficientes, disse Garcia a Rezende: eles precisavam encontrar as vítimas que o padre havia entrevistado todos aqueles anos atrás. Ambos reconheceram que isso não seria simples. As pessoas morrem e desaparecem. E a dispersão geográfica foi imensa. Os gatos costumavam levar trabalhadores através das fronteiras estaduais – e alguns muito mais longe.

Rezende entrou em contato com o estudante de pós-graduação Matheus Faustino — a quem descreveu como “a pessoa perfeita para esse trabalho, inteligente e ética” — e descreveu o desafio. Faustino, já interessado em pesquisar o rancho Volkswagen para um estudo acadêmico, concordou em ajudar e começou a folhear o dossiê. Ele destacou as dezenas de nomes nos documentos, mas logo percebeu que muitos eram tão comuns que os bancos de dados públicos seriam de pouca ajuda.

Ele estreitou sua busca aos municípios onde os gatos concentraram seus esforços de recrutamento e, em 2020, viajando de ônibus, foram de uma comunidade distante para outra. Ele se apoiou nos contatos regionais de Rezende, mas o trabalho foi exaustivo e em grande parte infrutífero. Em São Geraldo do Araguaia, nada. Em Araguaína, nada. Mesmo em Santana do Araguaia, onde as casas de alvenaria e os antigos postos de guarda da fazenda Volkswagen ainda estavam de pé, havia poucos vestígios dos trabalhadores que trabalhavam lá.

Finalmente, em Canabrava do Norte, onde Rezende entrevistou os cinco trabalhadores fugitivos, um avanço. Os homens ainda estavam vivos e queriam conversar. Suas histórias não mudaram, mas seus corpos mudaram. Eles agora pareciam velhos. Francisco Rezende de Souza, 62 anos, mal conseguia andar. Quando ele falou, foi pouco mais do que um murmúrio. Seus meses no rancho Volkswagen, disseram seus amigos, o quebraram. Depois de sua fuga, ele começou a beber muito, sempre a cachaça brasileira.

“Ele nunca conseguiu manter um emprego”, disse o amigo Antônio Eliseo Gobatto, 75, ao The Post em abril. “Nunca tive namorada, nunca me casei. Ele sempre se sentiu diminuído em tudo.”

A dois estados de distância, no Tocantins, Faustino encontrou três irmãos, Raul, Raimundo e Juldemar Batista de Souza. Seus três meses no rancho foram suficientes para mudá-los. Quando a subsidiária da Volkswagen desistiu do controle da propriedade em 1986, os gatos não os deixaram ir. Os irmãos disseram que foram vendidos e separados.

“Ainda posso ver meus irmãos sendo colocados na traseira de um caminhão e tirados de mim”, disse Raul ao The Post em abril, chorando. Séculos depois que seus ancestrais foram trazidos para o Brasil como escravos, disse ele, sua família foi devolvida à escravidão.

Raúl disse que passou os quatro meses seguintes em cativeiro, até que um fazendeiro o ajudou a escapar. Ele encontrou o caminho de volta para casa, para seus irmãos, que também conseguiram fugir. Mas Raúl descobriu que Juldemar não era o mesmo. Com o passar dos anos, seu irmão recuou cada vez mais em seu trauma. Hoje, Juldemar não fala mais. Ele apenas acena com a cabeça e balança.

Depois de mais de um mês de buscas, Faustino localizou 14 das 69 vítimas identificadas no dossiê de Rezende. Ele esperava que fosse o suficiente. Em 2022, ele contou aos homens sobre a investigação do Ministério do Trabalho e o caso em desenvolvimento contra a Volkswagen. Suas vozes seriam críticas. Eles estariam dispostos a testemunhar?

“Eles estavam interessados”, disse Faustino. “Eles estavam todos interessados.”

Um ex-trabalhador rural que estava entre centenas de homens supostamente pressionado a trabalhar sem remuneração no rancho da Volkswagen nas décadas de 1970 e 80

Os trabalhadores partiram logo após o amanhecer de um dia no final de maio, dirigindo mais de oito horas, de volta pelo terreno ondulado do estado do Pará. A fronteira que eles ajudaram a limpar, não mais reconhecível, era uma visão de tudo o que os generais militares do Brasil queriam. A floresta se foi, substituída por terras agrícolas, cidades movimentadas, rodovias pavimentadas – e um pequeno tribunal onde os homens se preparavam para enfrentar os representantes da Volkswagen pela primeira vez.

Após meses de negociações, a Volkswagen se recusou a continuar as negociações com o Ministério do Trabalho do Brasil. E agora a primeira audiência do processo do governo contra a empresa – que exigia US $ 30 milhões em reparações – estava começando.

Dentro do tribunal em Redenção, 120 milhas ao norte de Santana do Araguaia, a galeria estava cheia de espectadores. A primeira pessoa a testemunhar foi o representante da Volkswagen, José Antonio Tiro. Ele disse que a empresa não monitorava os direitos humanos com tanta rigidez naquela época, mas que havia investigado as alegações na época e não identificou nenhuma “irregularidade”.

Então, um por um, os trabalhadores vieram ao estande:

“Fomos vendidos”, disse Raul Batista de Souza.

“Dormíamos debaixo de um lençol de plástico preto”, disse Pedro Vasconcelos.

“Eles estavam todos armados; tínhamos que trabalhar”, disse José Ribamar Viana Nunes.

Finalmente, Rezende, que veio de todo o país, levantou-se para testemunhar. O padre não tinha dormido muito na noite anterior e acordou com raiva. “Como eles puderam ter permitido esse crime”, ele desabafou naquela manhã, “e continuaram a permiti-lo?”

Agora, olhando diretamente para o juiz, Rezende disse que ouvia reclamações do que chamou de “campo de concentração” dentro da fazenda desde 1977, mas que ninguém o impediu. “Recebi mais reclamações contra esses mesmos gatos nos anos seguintes”, disse ele. “O problema não acabou.”

Então ele renunciou e o juiz encerrou a audiência, prometendo uma decisão nas próximas semanas. Exausto, Rezende voltou ao Rio de Janeiro, onde, nos dias após a audiência, o caso ainda dominava seus pensamentos. “Tanta história”, disse ele. “Nada pode consertá-lo.”

Os trabalhadores se transformaram em velhos. Ele também.

Um bando de pássaros perto da antiga fazenda de gado da Volkswagen

Mas em uma manhã recente, enquanto subia as escadas para o escritório da universidade, ele se movia como um homem mais jovem. Ele abriu uma prateleira, revelando resmas de dossiês. Cada um detalhou alegações de escravidão em uma propriedade rural na Amazônia. Nenhuma das empresas por trás deles foi responsabilizada. Este caso contra a Volkswagen, ele esperava, seria apenas o primeiro.

Ele removeu seu arquivo no Rio Cristalino e o jogou sobre a mesa com um baque suave. Mais de 1.000 páginas, mas ainda incompletas. Ele tinha ouvido apenas as histórias daqueles corajosos o suficiente para fugir e depois falar. Mas havia tantos outros. Homens que nunca se apresentaram.

Quem eram eles? ele se perguntou. O que eles suportaram?

Ele saberia?

Um dia, ele esperava voltar para as colinas enevoadas de Santana do Araguaia para terminar o que começou.

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