O apelo publicitário das apostas esportivas

Da FOLHA
Por LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO
Brasileiros gastaram R$ 30 bilhões em apostas de janeiro a março de 2025
A Autoridade Climática ainda não está estabelecida no Brasil, mas, desde janeiro de 2024, o organograma do Ministério da Fazenda apresenta, ao lado da Secretaria da Receita Federal, da Secretaria do Tesouro Nacional, da Secretaria de Política Econômica e da Secretaria de Reformas Econômicas, a Secretaria de Prêmios e Apostas.
Não é pouca coisa. Nasce assim uma burocracia estável, para viver do jogo, assim como (em todo o mundo, aliás) uma burocracia estável vive da droga. O propósito é criar diretrizes para o “jogo responsável”, motivado apenas pelo “divertimento”.
Estado e sociedade civil estão de mãos dadas na empreitada ilusionista. O Instituto Brasileiro do Jogo Responsável, entidade com sede na Faria Lima, criado para a “construção de um ecossistema de apostas online íntegro, sustentável e responsável”, é bastante assertivo: “Pra jogar, tem que ter regra”.
O Ministério da Fazenda, de olho na arrecadação tributária anual, estimada em bilhões de reais, e no endividamento das famílias brasileiras mais vulneráveis, capaz de embaraçar o desenvolvimento econômico, celebra, em 17 de fevereiro, o Dia Internacional do Jogo Responsável (quem sabe, um dia será feriado) e criou grupo de trabalho para, no prazo de 60 dias (vencido, mas prorrogável, evidentemente), elaborar um Plano de Ação de Saúde Mental e de Prevenção do Jogo Problemático.
Segundo o Banco Central, apostadores brasileiros gastaram cerca de R$ 30 bilhões entre janeiro e março de 2025. Em depoimento, à CPI das Bets, no Senado, o presidente do Bacen afirmou que o hábito de apostar já faz parte da análise de risco de crédito de instituições financeiras, o que pode, conforme o perfil do tomador de empréstimo, elevar taxas de juros.
O Brasil, dizem, ocupa a terceira posição no mercado global de apostas esportivas. Portal de notícias tem entre os colunistas a “equipe apostas”, que oferece “insights que ajudam você a entender melhor o cenário” antes de jogar.
Dois atletas brasileiros com salários milionários são suspeitos de cartões amarelos propositais para beneficiar familiares apostadores. Todos os times de futebol da primeira divisão são patrocinados por bets.
Há restrições para a propaganda de bebida e de cigarro. No caso da jogatina, a legislação é frouxa: só não pode ser dirigida (especificamente) a crianças e adolescentes. Projetos de lei tramitam no Congresso Nacional propondo a proibição de publicidade e marketing que promovam apostas. A capacidade de corromper desse fecundo nicho econômico, porém, parece infinita.
Danem-se os escrúpulos. Gusttavo Lima, cantor, empresário, aspirante a presidente da República, Vinicius Junior, craque planetário, Seu Jorge e Galvão Bueno são alguns dos “embaixadores” do jogo responsável. Apostam na adrenalina do apostador para estimular o apelo comercial da máquina do jogo.
O jogo patológico foi reconhecido como “transtorno do controle do impulso” pela Associação Americana de Psiquiatria na década de 1980. Mas, mais de um século antes, o escritor russo Dostoiévski já descrevia os sintomas da compulsão no romance “O Jogador”, narrado na primeira pessoa.
A literatura se antecipava à ciência. Agora, a questão política se sobrepõe à doença, à epidemia.
