Collor: 2025 com gosto de 1992

Da FOLHA
Por MARILIZ PEREIRA JORGE
Sensação não é de alívio nem de justiça, mas de um cansaço ancestral
Era 1992. Eu estava no segundo ano da faculdade, tentando entender o país entre uma xerox amarelada e outra. Fernando Collor, o caçador de marajás, o jovem presidente que desfilava de jet ski enquanto confiscava nossas economias, sofria impeachment por corrupção.
Depois de duas décadas de ditadura, parecia um tropeço. Um escorregão ético de um Brasil em amadurecimento democrático. Um teste para nossas instituições. Pintei a cara, fui para rua —o sentimento era de fazer parte de um grande momento da história. Alguém já deveria ter alertado que o Brasil não tinha a menor chance de dar certo.
Corta para 2025. Collor é preso. Senador. Réu por anos. Julgado. Condenado. Preso. Queria babar de prazer. No entanto, a sensação não é de alívio, não é de justiça, mas de um cansaço ancestral. Um déjà vu moral. Um “até que enfim” que chega lento como elevador de repartição pública. Ver Collor ser preso agora é como encontrar um trabalho da faculdade no fundo da gaveta: desbotado, mofado, mas ainda cheirando a frustração.
Mais de 30 anos se passaram desde aquele impeachment. Três décadas vendo as mesmas figuras recicladas em diferentes cargos, com diferentes discursos, mas os mesmos métodos. O mesmo riso de canto de boca. A mesma pose de indignação ensaiada. A diferença é que agora eles têm redes sociais e assessoria de crise.
Collor está preso. Não por indignação nacional, nem por eficiência institucional, mas porque o relógio da prescrição falhou. Para quem conhece a coreografia da política brasileira, a cena tem mais de tragicômico do que de redentor. O Brasil não pune corruptos —adia. Prorroga. Reencena. E, quando não há mais como evitar, prende no último ato, quando a plateia já está indo embora, bocejando.
Collor é o retrato do Brasil que não muda. Um fantasma que assombra não porque é único, mas porque é arquétipo. A figura que atravessa décadas e governos com a serenidade de quem sabe que, neste país, o tempo cura até os crimes. Collor não é uma exceção. É a regra com biografia.
O capítulo de hoje não corrige o passado, nem intimida o presente. É um gesto simbólico tardio, um suspiro burocrático da justiça brasileira, que adora dar o último passo quando a dança já terminou. Collor teve tempo de se reinventar, de se vitimizar, de envelhecer. Tudo com a dignidade emprestada pelo cargo que nunca deveria ter tido.
O ex-presidente é a metáfora perfeita da impunidade brasileira: não aquela que escapa do tribunal, mas a que se bronzeia em Brasília, circula em colunas sociais e ainda encontra espaço para opinar sobre ética em entrevistas. O tipo que posa de estadista enquanto o país tropeça nos próprios escombros.
E agora, preso, ainda permanece intocável na memória de um país que aprende tudo muito rápido, mas esquece ainda mais depressa. Amanhã já será substituído por outro escândalo, outro nome, outro colarinho branco. Estamos presos nesse looping trágico-cômico onde os protagonistas da corrupção são sempre reciclados, e as punições, quando chegam, já perderam o impacto. A realidade virou reprise. E das ruins.
Collor não caiu. Ele apenas encerrou seu mandato de impunidade com atraso. Uma aposentadoria compulsória disfarçada de justiça. E nós, como sempre, aplaudindo com desconfiança, sabendo que o espetáculo recomeça logo mais, com o mesmo roteiro, novos figurantes e a mesma plateia exausta.
