A vergonha deve mudar de lado: da vítima para o agressor

Da FOLHA
Por NATALIA BEAUTY
História de Gisèle Pelicot deixa claro que quem comete o abuso que deve ser exposto, julgado e responsabilizado
No tribunal francês, o julgamento de Gisèle Pelicot se tornou um marco na luta feminista. Gisèle, que por uma década sofreu estupro por parte de seu ex-marido e outros 50 homens, tomou uma decisão corajosa: renunciar ao anonimato. Ao tornar pública sua história, ela não apenas revelou o horror que enfrentou, mas também destacou uma triste realidade que afeta milhares de mulheres diariamente. Gisèle deixou de ser apenas uma vítima de barbárie para se transformar em uma heroína feminista, inspirando outras mulheres a romperem o silêncio e exigirem justiça.
Sua decisão de expor sua história, permitindo que o julgamento ocorresse de forma pública, tem um impacto profundo. O estupro, muitas vezes envolto em vergonha e silêncio, ganha uma nova perspectiva quando a vítima decide enfrentar seus agressores de maneira tão aberta. Gisèle Pelicot não apenas mostrou sua vida desmoronando em meio ao trauma, mas também o perfil dos acusados, derrubando o estigma de que o agressor é sempre um monstro distante. Pelo contrário, como a própria Gisèle revelou, os agressores podem ser amigos da família, colegas, professores ou até vizinhos —homens comuns, com perfis comuns. Esse foi um ponto decisivo de sua denúncia: o estupro pode vir de qualquer pessoa, e não apenas de um estranho no beco.
Essa visão é central para desconstruir o mito do estuprador monstro. Durante o julgamento, as identidades dos acusados revelaram homens que, a princípio, pareciam comuns, mostrando que o perigo está muito mais próximo do que muitas vezes se imagina. Como destacou uma carta aberta publicada no jornal francês Libération e assinada por mais de 260 artistas, escritores, políticos, ativistas e historiadores: “Amigo da família, estranho em um bar ou rua, irmão ou primo, amigo, colega, professor, vizinho: todas as mulheres podem, infelizmente, encontrar um rosto que as traga de volta uma memória traumática entre as multidões de acusados”. Essa frase reflete a verdade amarga que Gisèle e tantas outras mulheres carregam: o estuprador pode estar ao lado, e não sempre em algum lugar remoto ou distante.
A coragem de Gisèle Pelicot em expor sua história é um movimento poderoso contra a cultura de culpabilização da vítima. Por séculos, as mulheres foram ensinadas a carregar o fardo da vergonha em casos de violência sexual, muitas vezes duvidadas, silenciadas ou culpabilizadas por suas experiências. Ao abrir as portas do julgamento ao público, Gisèle mudou a narrativa, transferindo a vergonha da vítima para o acusado. Sua história deixou claro que é o agressor que deve ser exposto, julgado e responsabilizado, e não a mulher que sofreu o abuso. Esse movimento é fundamental para a luta das mulheres que enfrentam situações semelhantes e fortalece o processo de conscientização coletiva.
Ao ver seu caso ganhar repercussão, Gisèle tornou-se uma voz não só para si mesma, mas para tantas mulheres que ainda não encontraram forças para falar. A visibilidade pública do julgamento é um grito de resistência em um cenário em que tantas mulheres ainda são invisibilizadas. E mais do que isso, é um lembrete de que a luta pela justiça não é apenas individual, mas coletiva. As vítimas encontram, na história de Gisèle, um símbolo de que podem reivindicar seu espaço, suas vozes e seu direito à justiça.
O impacto dessa exposição vai além do julgamento. Ele repercute profundamente em uma sociedade que ainda falha em proteger as mulheres de seus agressores e, muitas vezes, perpetua o silêncio em torno da violência sexual. Gisèle Pelicot rompeu esse silêncio e, ao fazer isso, abriu um caminho para que outras mulheres o sigam. Cada mulher que ousa falar, como Gisèle, traz consigo a força de muitas outras que, um dia, também poderão romper suas próprias correntes de medo e vergonha.
Esse julgamento também serve para derrubar outro mito: o de que os acusados são sempre figuras sombrias e distantes. Ao contrário, Gisèle mostrou que os agressores podem ser pessoas comuns, com rostos familiares. Esse aspecto humano do julgamento não apenas choca, mas também educa. Ele mostra que o problema da violência sexual não está restrito a um estereótipo de agressor, mas permeia todas as camadas da sociedade. Isso traz uma reflexão urgente: como uma sociedade pode se proteger quando os abusadores se escondem em plena vista?
Eu escrevi esse artigo, pois também assino embaixo dessa causa. A vergonha precisa, de fato, mudar de lado. Chegou a hora de as vítimas deixarem de carregar esse peso sozinhas, e de os agressores enfrentarem o julgamento não só no tribunal, mas também na sociedade. Gisèle abriu um caminho que não tem volta, e cada vez mais mulheres seguirão seus passos, transformando dor e medo em força e justiça.
