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Blog do Paulinho

A crise do apito não tem a ver com árbitros, mas com poder

De O GLOBO

Por MARCELO DAMATO

Não se vai melhorar a arbitragem enquanto a histeria e a sabotagem contra ela não forem contidas

Há 25 anos, quase toda rodada, explode uma nova polêmica na arbitragem. Nesse período mudaram-se vários diretores de arbitragem e quase todos os árbitros. Já se tentou arbitro de linha de fundo, VAR… E a crise persiste.

Não que antes a arbitragem fosse boa. Era pior. O apito tolerava que jogadores quebrassem seus adversários e decidia finais com frequência. Num Estadual, o árbitro errou a contagem dos pênaltis e gerou dois campeões. Em outro, o árbitro invalidou o gol do título encerrando o jogo.

Não havia crise porque não havia boas imagens de TV e porque jogadores, torcedores e jornalistas conheciam pouco as regras — o impedimento ainda era mal explicado nos anos 90. Quando isso mudou, a pressão cresceu, mas a situação piorou, porque apenas se minou a autoridade dos árbitros.

Quem mais contesta a autoridade são os dirigentes dos clubes grandes — e seus jogadores. Há décadas, com ou sem razão, culpar a arbitragem tem sido eficaz para desviar o foco em caso de derrota.

Jornalistas contribuem para piorar o quadro. Tratam erros limítrofes ou grosseiros de modo quase igual. Em situações controversas, os berros contra o “erros” abafam largamente os elogios pelo “acerto”. Nem num lance como o do pênalti no são-paulino Calleri, com trocentas visões apresentadas, se deu o benefício da dúvida ao árbitro.

A diferença na quantidade e volume das reclamações nos jogos das Séries A e B são o início da solução do problema. Na B, os árbitros na média são piores, mas há menos reclamação. A razão é que a reclamação tem menos a ver com o mérito do que com o poder. Quem reclama é jogador de time (que se sente) grande.

Diante dessa pressão desenfreada e caótica, os árbitros foram reagindo. No nível pessoal, tornaram-se musculosos. Para reduzir os erros, passaram a usar imagens de vídeo (mesmo quando não devem) como guia das suas decisões.

Os árbitros do VAR, que receberam a missão impossível do erro zero, entraram em surto operacional, que inclui rever um lance 42 vezes, inventar orientação em lances de suposta bola na mão e esquecer de protocolos como traçar a linha de impedimento no vídeo.

Esses desvios só podem ser explicados pelo viés emocional. Sem apoio da direção de arbitragem (que também se vê sobre um assento ejetor), os árbitros se veem numa guerra a cada jogo.

Quem não acredita pode lembrar de Sandro Meira Ricci. Na Copa de 2018, apitou tranquilo e foi destaque. No Brasil, sempre estressado, era crucificado a cada erro.

Na Copa, não adianta pressionar o árbitro. No Brasil, se o clube for grande o suficiente, a indisciplina não só não é punida, como dá frutos. E, se uma equipe para de reclamar, não só terá mais decisões em contrário, como ainda se dirá que está sendo beneficiada.

A última tentativa de reduzir as reclamações em campo, feita em 2015, foi bombardeada por cartolas, jogadores e técnicos de clubes grandes, e até por jornalistas.

Os fatos mostram que os árbitros são fruto da crise e não sua causa. Então como melhorar? É preciso que a CBF assuma de fato a missão de corrigir erros, que dirigentes, jogadores e jornalista deixem de tratar qualquer erro com berro. E, principalmente, que o STJD pare de se omitir.

Mas quem quer mexer nesse vespeiro?

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