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Blog do Paulinho

Nazistas e colaboracionistas continuam brincando com fronteiras da crueldade

Da FOLHA

Por KARLA MONTEIRO

Eu condenaria podcaster, deputado e quem faz coro a falas sobre nazismo a ler Primo Levi

Nas primeiras linhas, Primo Levi nos convida a tentar —pelo menos tentar— compreender. Nós, que vivemos “seguros”, em “cálidas casas”. “É isto um homem?”, ele pergunta, iniciando o sóbrio e elegante relato de sua experiência de 11 meses em Auschwitz, o campo de extermínio instalado pelos nazistas ao sul da Polônia.

Eu os condenaria a ler Primo Levi. Todos eles: o bêbado que defende a legalização de um partido nazista no Brasil, o deputado que, além de corroborar com o silêncio jocoso, concorda que a Alemanha errou ao criminalizar a doutrina, os colunistas de jornal que conseguem enxergar brecha para evocar a liberdade de expressão, os pitaqueiros de Twitter que fazem coro.

Na Alemanha dos anos 1930/40, os responsáveis pela ascensão do nazismo não foram somente os antissemitas, os racistas, mas todos que não disseram não. Segundo nos conta Primo Levi no prefácio, “Isto É um Homem?”, sua obra fundamental, brotou (também) do seu desejo de alertar as futuras gerações. O perigo rondará, sempre, é preciso estar vigilante para bani-lo antes que seja tarde demais.

A eleição do fascista Jair Bolsonaro abriu aqui, tão longe daquele palco dos horrores, este bueiro da desumanidade, como se a sua presença no Planalto fosse a autorização para a barbárie. Quem ainda não compreendeu isso e segue brincando com a fronteira da crueldade ou é nazista ou é colaboracionista. Na melhor das hipóteses, ignorante. Para os dois primeiros casos talvez não haja salvação. Para o último, existe Primo Levi.

“Pensem que isto aconteceu: eu lhe mando estas palavras. Gravem-nas em seus corações, estando em casa, andando na rua, ao deixar, ao se levantar, repitam-nas a seus filhos”, o autor conclama logo na primeira página. “Ou senão, desmorone-se a sua casa, a doença os torne inválidos, os seus filhos virem o rosto para não vê-los.”

A PARTIDA

Aos 24 anos, no dia 13 de dezembro de 1943, Primo Levi caiu nas mãos de uma milícia fascista da Itália de Mussolini. Poucos dias depois era embarcado junto com outros 650 judeus num trem lacrado, ignorando o destino: “Desceu dentro de nossas almas, nova para nós, a dor antiga do povo sem terra, a dor sem esperança do êxodo, a cada século renovado”.

O desfecho chegara de repente, após duas semanas de confinamento, sem água, sem comida, sem luz, cruzando a Europa em guerra. “A porta foi aberta com fragor, a escuridão retumbou com as ordens estrangeiras e com esses bárbaros latidos dos alemães ao mandar, parecendo querer libertar-se de uma ira secular.” Em menos de dez minutos, a eficiência germânica os organizou em grupos.

Os “homens válidos”, que podiam trabalhar para o Reich, entre eles o autor, foram atochados num caminhão. Após uma viagem de 20 minutos, encontraram-se a frente de um grande portão. “O trabalho liberta”, ironizava a placa. A Primo Levi, “tudo parecia incompreensível e louco”. De repente, já de túnica listrada e “boné ridículo”, ele tinha um número tatuado no braço: 174-517.

A ESCOLHA

Sem escorregar para sentimentalismos, com a escrita precisa e firme, Primo Levi nos convida a viver com ele a rotina de um campo de extermínio nazista: humilhações, agonias físicas e morais, a fome sem trégua, a exaustão, o aprendizado constante das estratégias de sobrevivência. “As feridas nos meus pés reabrem imediatamente, e um novo dia começa”, diz, ao descrever suas manhãs.

“Dizemos fome, dizemos cansaço, medo e dor, mas trata-se de outra coisa. Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres. Se os campos de extermínio tivessem durado mais tempo, teria nascido uma nova, áspera linguagem.”

No “campo de trabalho”, um anexo de Auschwitz, o autor cruzou dois invernos com mais de 20 graus abaixo de zero: “Se, no ano passado, nesta época, alguém nos dissesse que veríamos ainda um inverno no Campo, teríamos ido tocar a cerca eletrificada, e que ainda agora deveríamos ir tocá-la se fôssemos coerentes, ao não ser por este insensato, louco resíduo de esperança inconfessável”.

“Selekcja”, a palavra híbrida, latina e polonesa, era a mais temida em Auschwitz. De tempos em tempos, havia a seleção daqueles que já não mais serviam e seriam mandados para a câmara de gás. Quando o sino tocava fora de horários convencionais, todos deviam se locomover para os pavilhões para aguardar o destino.

“Cada um de nós, ao sair, nu, da peça no ar frio de outubro, deve passar correndo entre uma porta e outra, na frente dos oficiais, entregar a ficha ao SS e entrar pela outra porta, a do dormitório. O SS, na fração de segundo, com uma olhadela de frente e outra de costas, julga a sorte de cada um”.

Os prisioneiros sabiam. Caso a ficha fosse para a pilha à esquerda, significava sentença de morte: “Em breve foi a minha vez. Passei, como todos, com andar enérgico e elástico, procurando manter a cabeça erguida, o peito estufado, os músculos enrijecidos e salientes. Com o rabo de olho tentei ver atrás de mim, achei que a ficha fora para a direita”.

A LIBERDADE

No dia 11 de janeiro de 1945, Primo Levi ficou doente. E a escarlatina o salvou. Com os canhões russos trovejando nas cercanias de Auschwitz, os prisioneiros que ainda podiam andar foram obrigados a acompanhar os nazistas em fuga. Os enfermos, abandonados na Ka-Be, o hospital do campo. A notícia da iminente libertação não o animou. Fazia muitos meses que já não conhecia a alegria ou o temor.

o “Algo grande e novo estava por acontecer, percebia-se, ao redor de nós, uma força que não era a da Alemanha, sentiam-se os estalos de todo esse mundo maldito que estava por desmoronar.”

Eis que, exatos 77 anos depois, o mundo maldito ameaça se reerguer, lá fora e no Brasil de Bolsonaro, sob a complacência destes ditos liberais, que acham válido o debate sobre a liberdade de ser nazista. Só nos resta perguntar: por que o fascista da República, o influencer do inferno, ainda não foi demitido? É isto um presidente? É isto um homem?

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