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Eu te entendo, Lima Duarte

De O GLOBO

Por JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Eu te entendo, Lima Duarte, e para deixar claro vou repetir aqui o tom da tua mensagem ao Flávio Migliaccio, um chamamento dolorido aos que ainda têm coragem e precisam demonstrá-la neste momento, “quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68”.

Eu te entendo, pelo menos foi assim que captei a mensagem. Foi como se você chacoalhasse de novo na cara da nação as pulseiras de ouro, aqueles relógios ostentatórios que o Dias Gomes botou no pulso do Sinhozinho Malta – “tô certo ou tô errado?” – e gritasse a necessidade de o país acordar, de todos saírem desse estupor preguiçoso, uma nota de repúdio atrás da outra, e reagir de modo mais efetivo, “porque os que lavam as mãos fazem-no numa bacia de sangue”.

Eu te entendo, Zeca Diabo, e sei muito bem que é preciso ser  macho como os de antigamente para fazer o que você fez, colocar a cara na nova janela do mundo, a mensagem de vídeo pelo Whatsapp, e, com a autoridade de um dos valentes icônicos da rala galeria nacional, confessar emocionado o apavoramento de ver se aproximar novamente, 56 anos depois, a infâmia de uma ditadura.

Eu te entendo a sensibilidade histórica, grande ator, quando você relembra nostálgico a luta no Teatro de Arena, ao lado de Migliaccio, de Chico de Assis, para colocar em cena a dignidade do homem brasileiro mais humilde, a alma brasileira movida pela confraternização mais amorosa, pois hoje o país olha abestalhado um punhado irreconhecível de homens e mulheres que se apoderaram da bandeira e – que brasileiros são esses? – gritam palavras de ódio e retrocesso.

Eu te entendo, bom mineiro nascido na poesia de um povoado chamado Nossa Senhora da Purificação do Desemboque e do Sagrado Sacramento, eu te respeito a indignação por estar num tempo em que ontem morreu Sérgio Sant’Anna, anteontem Aldir Blanc, na outra semana Garcia-Roza, e em meio a isso tudo ainda há quem se esforce, sem essa de poesia, para que amanhã morram mais dez mil e seja de novo recuperada a máquina da economia.

Eu te entendo, Sassá Mutema, a tristeza de chegar a esta altura de tão linda aventura pelos palcos, pela televisão, depois de lutar contra o colonialismo cultural, e ter de se deparar com a falta de empatia, as leis ao léu, a bandeira americana tremulando no planalto central do país, e perceber que os personagens dos bons propósitos ficaram estigmatizados como ingênuos demais para o mercado e a nova grade da programação.

Eu te entendo a decepção, Lima Duarte, de chegar até aqui cheio de esperança numa espécie humana com melhor dramaturgia e, aos 90 anos, em meio à devastação dos velhos e da canastrice vitoriosa dos vilões autoritários, ser obrigado a prantear a morte do amigo suicida com o desabafo desassombrado de que você não teve a mesma coragem, mas  – pelo menos foi isso que eu entendi, Lima Duarte – a escuridão está aí novamente, o medo é absoluto e aos sobreviventes só resta lutar.

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