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O vírus da política na Prevent Senior

Da FOLHA

Por ELIO GASPARI

A operadora de planos de saúde foi do paraíso ao inferno

Em 1997, o deputado Ayres da Cunha, dono de uma operadora de planos de saúde e líder da bancada parlamentar que defendia os interesses do setor, disse que “na minha empresa há um problema chamado idoso (…). Se tirássemos todos os idosos do meu plano, minha rentabilidade aumentaria muito”.

Nessa época, o médico Fernando Perillo e seu irmão Eduardo entraram no mercado com a Prevent Senior. Ofereciam planos individuais a idosos e cobravam pouco. Parecia coisa de maluco, mas era a saudável demonstração da destruição criativa do capitalismo.

Enquanto o mercado operava sem controlar seus custos, a Prevent era fechada. Tinha seu plantel de médicos, seus laboratórios, seus hospitais e suas clínicas. Em 2017, o mercado teve autorização para aumentar suas mensalidades em 13,55% e a Prevent subiu só 6,5%. Seu ticket médio estava em R$ 509. À época já tinha 327 mil clientes.

Hoje os clientes são 550 mil, com 10 mil funcionários, 3.000 médicos e 11 mil leitos hospitalares. Com esse cadastro ela foi exposta na CPI da Covid. Meteu-se com a cloroquina, alterou prontuários e seu diretor-executivo, Pedro Benedito Batista Junior, foi grampeado num telefonema durante o qual ameaçou um médico com a sutileza de um miliciano: “Você contou para sua esposa o que fez? (…) Você tem muito a perder, é a sua vida, é a sua família”.

O caso da Prevent deveria ser estudado em escolas de administração de empresas. Num mercado onde prevalece a promiscuidade entre maganos e agentes públicos, a Prevent atravessou a rua para escorregar em cachos de bananas. Não se conhecem os detalhes de suas relações com políticos e servidores, mas é possível mapear os dias em que ela tomou o caminho da roça.

Em março de 2020, quando a pandemia mal tinha chegado ao Brasil a Prevent tinha 212 casos suspeitos de Covid, oito confirmados e 40 clientes internados. Sendo uma operadora que atendia idosos, isso era compreensível. No dia 17 de março morreu um de seus clientes. Autoridades sanitárias puseram o nome da empresa na roda e a Prevent honrou o público blindando-se em ameaçador silêncio.

No dia 1º de abril, o ministro Luiz Henrique Mandetta mostrou-se preocupado porque 58% das mortes de São Paulo aconteceram em hospitais da Prevent. Fernando Parrillo, presidente da empresa, atirou de volta: “Falar de modelo de negócio com quem veio de cooperativa médica, que não paga imposto, é complicado”. Mandetta havia sido presidente da Unimed Campo Grande (MS).

Como a Prevent estava ameaçada de intervenção, Parrillo argumentou que esse assunto era da alçada da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Brasília entrava na dança.

Nesses dias, Jair Bolsonaro falava em “gripezinha” e já havia proclamado sua fé na cloroquina, determinando ao “seu” Exército que passasse a produzi-la. Médicos renomados tomavam a medicação.
Acreditar na cloroquina em março e abril de 2020 era um fato da vida. Nos meses seguintes, e até hoje, tornou-se um fato da morte. Bolsonaro continuou convicto e a Prevent foi atrás.

Meteu-se numa pesquisa de fancaria exaltada publicamente pelo presidente. Passou a receitar cloroquina sem o conhecimento de pacientes. Manipulou documentos que resultaram na omissão da letalidade da Covid. Daí a ameaçar médicos, seria um passo e ela o deu.

Havia uma diferença entre as pessoas que defendiam a cloroquina em março de 2020 e a obsessão bolsonariana. Num caso havia alguma incerteza científica. No outro, havia o exclusivo propósito da instrumentação política. Passado mais de um ano, e meio milhão de mortos, Fernando Parrillo reconheceu para as repórteres Patrícia Pasquini e Suzana Singer que a pesquisa não era pesquisa, pois havia acontecido um “deslize”.

Admitiu, finalmente, que o famoso estudo da Prevent não mostrou que a cloroquina funcionava contra a Covid.

Se a Prevent tivesse feito isso há um ano, teria sido bom para muita gente, inclusive para ela, que agora terá que se explicar ao Ministério Público.

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