A fantasia obscena de uma mulher casada

Da FOLHA

Por BECKY S. KORICH

  • Esposa-mulher é uma das formas mais eficientes de normalizar a desigualdade
  • Eu me daria ao luxo de esquecer; delegaria a ela a tarefa de lembrar e, principalmente, a de se preocupar.

Tenho tido pensamentos perigosíssimos para uma mulher casada: e se eu tivesse uma esposa? Não uma secretária do lar, não uma amante, muito menos um robô. Uma esposa real. Pode até ser um homem-esposa, desde que fizesse as coisas que fazem a vida funcionar para sustentar a parte invisível do cotidiano.

Eu daria conta de tudo. Seria mais eficiente, uma mãe melhor e até uma esposa melhor. Seria menos louca, menos carente e, definitivamente, menos histérica. Alguém tem que fazer esse papel.

Eu não acordaria devendo milhões de coisas para o dia. O despertador tocaria mais tarde, com o dia já domesticado e o caos amortizado. Deixaria para a esposa a missão de transformar pequenos selvagens em seres civilizados. Eles chegariam prontos para mim, autorregulados quanto ao tempo de tela, vacinados não só contra a gripe e o excesso de açúcar, mas também contra humores hormonais. Bastam os meus.

Provavelmente eu seria mais rica. Não porque trabalharia mais, mas porque, ao contrário, trabalharia menos —e com a cabeça inteira. Em um único turno. Terminaria projetos empacados e talvez inventasse outros, enquanto ela se ocuparia dos “detalhes”: comida, compras, reunião da escola, dentista, meias rasgadas, detergente. Se eu tivesse uma esposa, poderia finalmente me dedicar a coisas “mais nobres”.

Quantas ideias não foram abortadas porque alguém, inevitavelmente, precisava ser cuidada? Quantas páginas eu poderia ter escrito se eu tivesse esposa? Com uma esposa, não haveria necessidades inadiáveis para me interromper.

Eu me daria ao luxo de esquecer. Esquecer o horário, as listas. Delegaria a ela a tarefa de lembrar e, principalmente, a de se preocupar. Assim são as coisas: atrás de um folgado há sempre um sufocado.

Quando gripada, eu me dedicaria inteiramente à gripe. Quase como os homens fazem. O mundo giraria ao redor do meu umbigo febril. A sopa apareceria. O remédio viria. Eu me largaria na cama com uma tranquilidade indecente para uma mulher decente, na certeza de que, fora do quarto, tudo estaria funcionando na temperatura certa.

Me curaria da gripe e, quem sabe, até de mim mesma.

Eu seria uma outra pessoa. Não porque mudaria, mas porque teria tempo de ser mais eu. Talvez até me tornasse quem sou.

Eu conseguiria a proeza de operar com uma aba aberta no cérebro. Uma só. Pensar e fazer uma coisa de cada vez. Seria mais “produtiva”, mais focada. Conseguiria terminar um raciocínio antes que o próximo viesse engarrafar o pensamento, deixando para a esposa o viaduto entupido e as buzinas do tráfego doméstico.

Minhas 24 horas teriam, de fato, 24 horas. Com tempo para brincar com os filhos, conversar com eles e transmitir todo o meu amor sem interferências —ela seria a chata. E ainda teria tempo para namorar enquanto o jantar se resolvesse sozinho.

E, claro, jogaria todos os sentimentos de culpa —e as culpas reais— para ela.

A esposa-mulher é uma das formas mais eficientes de normalizar a desigualdade. Mas, se eu tivesse uma, isso já não seria problema meu.

Ficando só com a parte boa, eu flutuaria leve, como uma pipa, enquanto ela seguraria a corda.

É uma fantasia quase pornográfica para uma mulher casada. Quem não gostaria de ser o astronauta enquanto o outro sustenta a gravidade.

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