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Se Tarcísio Meira é Charlton Heston, Paulo José é nosso ator europeu

Da FOLHA

Por FERNANDA TORRES

Perdidos na tempestade, a dupla realizaria a mais perfeita tradução shakespeariana do Brasil de agora

Aconteceu no Natal de 1981, nos estúdios da Globo Usina. Passados três anos do arrasa-quarteirão “Dancin’ Days”, Daniel Filho e Gilberto Braga retomavam, na novela “Brilhante”, a bem-sucedida parceria.
Aos 15 anos, eu estreava no horário nobre ao lado dos medalhões Vera Fischer, Claudio Marzo, José Wilker, Renée de Vielmond, Jardel Filho, Fernanda Montenegro e… Tarcísio Meira.

Não sei quem organizou o amigo oculto natalino do folhetim, mas acho que partiu de Daniel Filho a ideia de Tarcisão se vestir de Papai Noel para distribuir os presentes. Aglomerados na pequena sala dos atores, aplaudimos a entrada do astro-rei recoberto em cetim vermelho, com uma barba branca de nylon mal ajustada ao rosto.

Um dos câmeras eternizou o momento, equilibrando a lente no ombro, entre os gritos efusivos da equipe e os ohs-ohs-ohs do portentoso velhinho.

Tarcísio acabara de depositar o saco de regalos sobre a pequena mesa do fundo da sala, quando a tragédia se deu. Sem perceber, o câmera encostou a traseira do equipamento na lâmpada do lustre e acabou grudado na fiação, com o corpo transpassado por um choque digno da mais mortal cadeira elétrica.

Todos recuaram petrificados, menos, é claro, Tarcísio Meira. Sem titubear, João Coragem avançou em direção ao rapaz e o empurrou com a força de seu corpanzil, suportando a rebarba da alta voltagem. Ajoelhado sobre o quase cadáver, Papai Noel desenrolou a língua do pobre com os dedos e o salvou do sufocamento.

Herói dentro e fora de cena. Épico. Tarcísio Meira é épico.

O Brasil não costuma produzir atores assim, capazes de sustentar a coroa, de empunhar a espada sobre o cavalo, ou encarnar o Demo. Costuma-se usar a palavra galã para definir Tarcísio, mas qualquer rostinho bonito pode ser taxado de galã.

A palavra ofende porque reduz o talento do monstro aos seus dotes físicos. Basta vê-lo em “A Idade da Terra”, no “Grande Sertão: Veredas”, na novela “Escalada” ou no” Independência ou Morte” para perceber que estamos diante de um ator mítico.

Eu tenho horror das convicções políticas do Charlton Heston, horror, mas sou devota do Ben-Hur dele, do Moisés e de todos os filmes apocalípticos que o ídolo de direita e defensor das armas realizou nas décadas de 1960 e 1970.

O corpo retorcido pela dor da consciência, diante dos escombros da Estátua da Liberdade, no encerramento de “O Planeta dos Macacos”, é inigualável. E como não admirar os uivos pungentes em “Soylent Green” e “Ben-Hur”, o desempenho sobre a biga e a descida do Monte Sinai, com a peruca arrepiada pelo contato imediato com Jeová?

Desafio qualquer um, até o mais fino intérprete, a encarar a tanga e a toga sem cair no ridículo.
Mas Heston é americano, filho da megalomania da land of the brave. Heston é o resultado esperado da cultura que o forjou. Tarcísio, não, Tarcísio é um Aquiles parido na terra do Macunaíma. Caso raro, raríssimo.

E com Macunaíma chego à outra face da moeda, a do anti-herói Paulo José.

Se Tarcísio é Charlton Heston e Sean Connery, Paulo é o nosso ator europeu, é Jean Pierre Léaud e Giancarlo Giannini, Paulo é o Marcelo Mastroianni dos pampas.

Formado pelo Teatro de Arena, ao lado de, entre outros, Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Flávio Império, Flávio Migliaccio, Lima Duarte, Dina Sfat, Myriam Muniz e Juca de Oliveira, Paulo fez parte de um movimento que pretendeu fortalecer a dramaturgia nacional e retratar o homem brasileiro.

De “Eles Não Usam Black-Tie” a “Shazan, Xerife & Cia.”, de “Pecado Capital” à “Grande Família”, de “A Gota D’água” à “Medeia” da televisão, de “O Padre e a Moça” ao “Macunaíma”, incontáveis peças, novelas e filmes seminais brasileiros tiveram a contribuição, a autoria, ou a influência do Arena de Paulo.

Alter ego de Domingos Oliveira, com quem realizou “Todas as Mulheres do Mundo” e “Edu Coração de Ouro”, duas pérolas inclassificáveis da nossa filmografia, Paulo José era o encanto em pessoa, um homem irresistível, brilhante, irônico e hilariante. Paulo é o que de melhor poderíamos sonhar ser.

“O Camareiro”, de Ronald Harwood, foi última investida de Tarcísio Meira no teatro, na pele do grande ator senil que se esfalfa para dar conta do “Rei Lear”.

Se Tarcísio é Lear, Paulo é o Bobo. Perdidos na tempestade, a dupla realizaria a mais perfeita tradução shakespeariana do Brasil de agora, dos desmandos dessa terra em transe, a ser encenada nos pilotis do Palácio Capanema, antes da liquidação.

A partida dessas duas potências, em meio à degringolada geral da nação, me faz pensar… em que momento, mesmo, perdemos o trilho?

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