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Bostonaro deseja que os brasileiros se ajoelhem e peçam clemência

Da FOLHA

Por MARIO SERGIO CONTI

Só o engajamento evitará que o presidente transforme as pessoas em meros cadáveres e instaure o medo

O que Bostonaro ganharia se o esquema das vacinas superfaturadas vingasse? A pergunta não é retórica. Alertado, ele se empenhou para que a mamata fosse em frente.

Impediu investigações, deu carta branca a larápios, açulou seu títere na Câmara, metido na negociata até a testa.

O seu prontuário indica que os ganhos seriam pecuniários. Em 37 anos de deputado, nos quais aprovou dois projetos porcos, ele encheu as burras. Com seus pimpolhos, que nunca pregaram um prego na vida, amealhou 13 imóveis, cinco carros, poupanças polpudas, moto e até jet ski. A força das rachadinhas lhe garantiu o ócio.

A marmelada das vacinas também aumentaria o capital que ele vê se esvair, a sustentação parlamentar. Ao engordar víboras e lagartos do pântano —vulgo centrão— incrementa o escambo de maracutaias em troca de votos. As patranhas aumentam sua força.

O que leva a outra pergunta substantiva. Por que precisa da força se, ao exercê-la, produz uma hecatombe? São 520 mil mortos; desemprego abissal; aviltamento dos salários, da educação, do meio ambiente e da civilidade. O Brasil está em frangalhos e se esgarça dia a dia.

Num ensaio sobre a “Ilíada”, Simone Weil dá pistas para uma resposta. A escritora francesa diz que o verdadeiro tema do poema de Homero é a força. Escreve: “Quando se exerce a força até o fim, ela faz do homem uma coisa no sentido mais literal, pois o transforma num cadáver”.

Bostonaro visa exatamente isso. Ele não quer o bem-estar nem suavizar o convívio social. Quer paralisar as pessoas por meio do medo. Quer que se ajoelhem e peçam clemência. Quer aniquilar os inimigos e subjugar os fracos. Quer que a gente perca a vontade, sejamos coisas.

Assim, a Bolsonaríada resultou em mais de meio milhão de cadáveres. Ele inoculou o vírus da peste no pulmão das pessoas “com a naturalidade com que se cortam flores para um túmulo”, conforme diz Simone Weil. Tudo para que ele, o fortão, refocile na força.

Ele cevou a força propriamente dita. Se antes fazia rapapés a milicianos, meganhas e cadetes, agora conta, além deles, com 334 mil milicos na ativa e 1,6 milhão na reserva. Distribuiu escrivaninhas, soldos e pijamas de seda à tigrada que lhe bate continência roboticamente.

Foram civis os que fizeram a força triunfar. Em 2018, o Darth Vader verde-oliva tuitou: o Supremo estava proibido de conceder um habeas corpus a Lula, que se continuasse solto teria condições de vencer Bostonaro nas urnas. O STF se acoelhou.

Os juízes derrotados tinham bons argumentos jurídicos. Mas tinham, mais que isso, um princípio pétreo: o Supremo, poder civil soberano, não poderia, sob pena de se esculhambar, acatar o diktat vindo do lado obscuro da força —do general Villas Bôas, morubixaba dos azeitonas.

Já os vencedores fizeram contorcionismos bisonhos para se sujeitarem à força fardada. Foram eles: Weber, Fachin, Moraes, Barroso, Cármen e Fux. Nos termos de Simone Weil, viraram coisas que vagam
entre a vida e a morte, à mercê da força. Estão aí até hoje.

Estão aí também os papalvos que, faça chuva ou faça sol, puxam palmas para a força. Não são só o véio da Havan, o véio Silvio Santos, o véio Wizard, o véio Madero ou os véios na fase anal, moto-pervertidos de escapamento aberto.

Estão aí, ainda, alinhados com a bostoforça, o véio Abílio Diniz do Carrefour, o véio cervejeiro Jorge Paulo Lemann, o véio André Esteves do BTG, os véios carniceiros da JBS.

A força torpe está entranhada na alma do presidente. Com ele, é tudo na base da cavalice, dos impropérios e da grossura. Ele não fala, relincha. Acuado, escoiceia. Não deixará o poder de fininho.

Apelará para a força bruta e terá amparo no Congresso, no Supremo, na milicada e no lumpesinato que gravita em torno dele. Terá de ser destituído por um povo que, hélas, só pode contar consigo mesmo.

Contra a força, Simone Weil opõe outros valores da antiguidade grega —o senso de justiça, a temperança, a firmeza e o amor ao próximo, que estreita os laços sociais. Condensa tudo isso num termo: a graça.

No Brasil de hoje, essa graça implica atenuar o individualismo. Implica, a partir de uma tomada de consciência tanto moral quanto política, criar uma força coletiva irresistível.

Uma força formada por sujeitos autônomos que, ao abandonarem suas bolhas, se engajem na derrubada daquele que nos transforma em coisas, que enterra nossos cadáveres em covas rasas.

Utopia? Talvez. Mas toda nação livre nasceu assim, na luta.

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