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O dever dos democratas

Da FOLHA

Por CHRISTIAN LYNCH

Momento é crucial para processo de impeachment

bolsonarismo é um movimento cujo núcleo dominante se orienta por uma ideologia reacionária, baseada na negação dos valores modernos de liberdade e igualdade. Irradiado pelas redes digitais e ramificado nos aparatos repressivos oficiais ou clandestinos, este “negacionismo estrutural” incentiva a adoção de comportamentos antissociais baseados na confrontação violenta dos críticos e adversários. Trata-se, em resumo, de um neofascismo high-tech.

Chegado fortuitamente ao poder, o bolsonarismo precisa se enraizar. Daí que ele se preocupe menos em administrar o Estado do que em explorar seus imensos recursos —dinheiro, cargos, privilégios— para erigir uma base permanente de apoio. Daí o verdadeiro “republicídio” por ele praticado ao recorrer ao clientelismo mais escandaloso para cooptar e fidelizar aliados de todos os tipos: emissoras, empresários, militares, deputados e senadores, juízes etc.

Esse assalto violento das estruturas do Estado para fins eleitorais e clientelísticos produz, claro, um desempenho administrativo pífio. Daí a funcionalidade do “negacionismo estrutural”, que, difundido pela propaganda oficial e oficiosa, visa a ocultar os escândalos de corrupção e a qualidade catastrófica da gestão pela deformação da realidade global e pela poluição permanente do debate público com falsas questões.

Uma vez que pratica ilícitos em série para garantir o seu enraizamento no prazo mais exíguo possível, o bolsonarismo precisa sobreviver à sua responsabilização penal e política até a próxima eleição. Sua impunidade foi garantida pela cooptação dos dois personagens encarregados de responsabilizar o cabeça do movimento, o presidente da República. O leilão das vagas de ministro do Supremo Tribunal Federal neutralizou o procurador-geral da República, responsável por processá-lo juridicamente. A corrupção parlamentar neutralizou o presidente da Câmara dos Deputados, responsável por processá-lo politicamente.

O momento é crucial. Se o processo de impeachment não sair nos próximos meses, ele desaparecerá do horizonte com a proximidade crescente da próxima eleição. O bolsonarismo terá mais um ano e meio para dilapidar os recursos do Estado e apostará no próximo passo: investir maciçamente o “negacionismo estrutural” para desmoralizar o sistema eleitoral. Essa segunda etapa é essencial para deslegitimar sua eventual derrota em 2022 ou justificar sua posterior alteração, em caso de vitória, de modo a garantir pela fraude sua perpetuidade no poder.

O momento também é crucial para a oposição. Diante do risco autoritário, é dever dos democratas formar uma coalizão de veto a Bolsonaro em defesa da democracia. Unidos pela defesa da saúde e da democracia, imprensa, partidos, sindicatos, movimentos sociais, sociedade civil e celebridades devem deixar de lado suas divergências secundárias. Precisam todos investir pesadamente no apoio ao trabalho da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, voltado para a restauração da verdade na gestão da pandemia contra o negacionismo estrutural, e pressionar o sistema político de fora para dentro, promovendo contínua e cada vez mais volumosa mobilização popular.

A formação de semelhante coalizão de veto é essencial para aumentar os custos do presidente da Câmara como fiador da impunidade dos crimes do bolsonarismo e evitar que o governo ganhe mais tempo. Caso não seja possível colocar o impeachment na agenda política, essa aliança democrática terá, em todo o caso, servido à oposição como um ensaio para um pacto mais amplo de não agressão e convergência mínima de objetivos no ano que vem, voltado para a vitória de um candidato de oposição, seja ele qual for.

É dever de todos os democratas evitar que o ano de 2022 entre para a nossa história como o último em que, por muitos anos, houve eleições livres no Brasil. Para isso, será preciso concentrar esforços para que Bolsonaro seja removido do poder. O quanto antes, melhor.

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Um comentário sobre “O dever dos democratas

  1. Jose Ricardo

    6a feira começou animada pra oposição, primeiro a publicação uma pesquisa mais falsa que nota de 3 reais realizada pelo desconhecido instituto IPEC que nem mesmo o PT comemorou. Detalhe a CEO desse IPEC, segundo a delação do ex-diretor da J&F Ricardo Saud na Operação Alaska, de emitir nota fiscal fraudulenta de pesquisa eleitoral paga pela J&F como forma de propina pro MDB do Senado num com senador Renan Calheiros quando era diretora do IBOPE.

    Enquanto isso na CPI, o G7 oposicionista gritava sem parar que seria o Dia D, os depoimentos dos irmãos Miranda seriam mísseis atômicos que dizimariam o Presidente Bolsonaro e que depois do depoimento deles não haveria outro caminho senão impeachment ou renúncia do Presidente Bolsonaro, tanto que o ilibado senador Omar Aziz disse ao site O Antagonista – e depois negou de pés juntos que não disse o que disse e que os Antas inventaram tudo… – “Agora pegamos o governo, a máscara caiu”.

    Mas o que vimos, pra não variar, foram os irmãos Miranda apresentando pastéis de vento, muito vento, denúncias vazias que até então eram comemoradas por uma oposição desesperada para que o Brasil volte a ser como era nos tempos dos governos petistas. O tal depoimento foi tão pífio e vergonhosos que os “denunciadores” Miranda & Miranda não sabiam sequer quantas doses vinham num frasco da vacina. Mas o melhor pior momento da 6a feira estava reservado ao senador fala fina, o amigão do Maduro que, num ato desavergonhado, afirmou “estamos aqui pra apoiar os depoentes”, depois percebendo que disse mer.., tentou convencer a todos que não disse a mer.. que disse.

    6a feira foi sem dúvida o Dia D da CPI sim. D de Difícil pra oposição. D de Decepcionante pro gabinete paralelo do lulismo. E conforme vimos a República não caiu….

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