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Sexo e marxismo na biblioteca da Fundação Palmares

O presidente Jair Bolsonaro, ao lado do presidente da Fundação Palmares Sérgio Camargo (à direita, de óculos), durante evento sobre a retomada do Turismo, no Palácio do Planalto, em novevmbro de 2020

Da FOLHA

Por MARIA HERMÍNIA TAVARES

O relatório denuncia inequívoca vocação da extrema-direita para a censura

Nos meses que se seguiram ao golpe de 1964, os beleguins que invadiam de madrugada as casas dos perseguidos pelo novo regime não iam atrás apenas dos que ali moravam —mas também de seus livros. Perigosos por definição, seriam ainda prova da crença dos donos em ideias comunistas.

Na caça à subversão impressa, foram apreendidos até exemplares de clássicos da literatura como o romance “O Vermelho e o Negro”, do francês Stendhal, e “A Capital”, do português Eça de Queiroz, decerto confundido com a obra mestra de Karl Marx. Tempos depois, institucionalizou-se o arbítrio com a censura —sistemática, arbitrária e iletrada— de obras de arte, revistas, livros e artigos de jornal.

Uma versão patética do zelo dos censores dos tempos autoritários ressurge do fundo da noite na FCP (Fundação Cultural Palmares), vinculada à Secretaria Especial da Cultura e dirigida pelo jornalista Sergio Camargo. Expõe-se de corpo inteiro no primeiro volume do Relatório Público do Acervo da FCP, que tenta fazer crer, ao modo daqueles tempos infames, que a biblioteca teria sido “um braço da militância revolucionária”, colecionando “obras pautadas (sic) pela revolução sexual, pela sexualização de crianças, pela bandidolatria e por um amplo material de estudo das revoluções marxistas e das técnicas de guerrilha”.

Repetindo o passado, fazem parte dessa lista pensadores clássicos como Max Weber e Karl Marx, e conhecidos historiadores contemporâneos, a exemplo de Eric Hobsbawn e Eric Williams. O coordenador do trabalho, apropriadamente, é um jornalista que publicou, entre outras obras memoráveis, dois livros sobre golfe. Para completar, proclama que o presidente Joe Biden é pedófilo, e que a sua vice, Kamala Harris, é notória comunista.

O acervo minguado, desatualizado e bizarro na falta critério que justifique a seleção das obras, está a léguas de parecer uma biblioteca especializada, que sirva aos fins da Fundação. Mas, o relatório que o descreve denuncia sobretudo as obsessões que organizam o —vá lá— pensamento da extrema-direita, o seu esquálido repertório cultural e sua inequívoca vocação para a censura.

No magnífico romance “A Festa do Bode”, o peruano Mario Vargas Llosa descreve em minúcias o círculo mais próximo do ditador dominicano Trujillo: juristas lacaios, assessores vindos do nada, jornalistas fracassados, pseudointelectuais a fim de tudo para agradar ao chefe. Impossível não lembrar deles ao ler o relatório da Fundação Cultural Palmares e se dar conta de quem, neste governo, controla os meios de promoção da cultura e da livre circulação de ideias.

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