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Pazuello só foi ministro porque aceitou transformar ‘coisas de internet’ de Bolsonaro em políticas públicas

Ao lado de Pazuello, Bolsonaro gera aglomeração no Rio após dizer que teve  sintomas de Covid - 23/05/2021 - Poder - Folha

Da FOLHA

Por CELSO ROCHA DE BARROS

Bolsonaristas aplaudiram ex-ministro na CPI porque querem general preso

Em seu depoimento à CPI da Covid, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello provou que é mais leal a Bolsonaro do que ao Brasil. Já seria triste ver um general se prestando a isso se Bolsonaro fosse só mais um político porcaria. Na verdade, Jair é uma das maiores ameaças que o Brasil já enfrentou. Não é fácil encontrar, na história recente, uma força beligerante que tenha matado mais soldados inimigos do que Bolsonaro matou brasileiros durante a pandemia.

Na CPI, Pazuello mentiu sobre tudo: mentiu que não atrasou a compra de vacinas, mentiu que um hacker invadiu o site do Ministério da Saúde para instalar o programa TrateCov, mentiu que não promoveu o uso da cloroquina depois que estudos científicos provaram sua ineficácia contra a Covid-19, mentiu sobre os crimes do governo durante a crise do oxigênio em Manaus. Omitiu o fato de que, enquanto o governo fazia isso tudo, generais responsáveis seguiam as orientações da OMS no Exército, garantindo com isso uma baixíssima mortalidade entre os militares brasileiros.

Mas o maior escândalo do depoimento de Pazuello foi a declaração de que Bolsonaro não lhe deu ordem de não comprar a Coronavac, a vacina do Butantan, da China e de Doria, responsável por 80% da vacinação brasileira até agora. O vídeo em que Bolsonaro dá a ordem foi divulgado pelos próprios bolsonaristas; o vídeo em que Pazuello diz que desistiu de comprar a vacina por ordem de Bolsonaro (“Um manda, o outro obedece”) foi divulgado pelos próprios bolsonaristas.

Segundo o ex-ministro, as declarações de Bolsonaro contra a Coronavac foram “coisa de internet”, um teatro político motivado pela rivalidade entre Bolsonaro e João Doria. Pazuello argumenta que as coisas de internet de Bolsonaro não influenciaram políticas públicas.

É mentira.

A questão é simples: Pazuello ou os outros ministros de Bolsonaro podiam desobedecer às coisas de internet que Bolsonaro dizia?

É evidente que não.

Mandetta tentou ser um ministro da Saúde técnico enquanto Bolsonaro falava suas coisas de internet: caiu. Teich tentou ser um ministro da Saúde técnico enquanto Bolsonaro falava suas coisas de internet: caiu. Dez dias atrás, a infectologista Luana Araújo, pós-graduada na Universidade Johns Hopkins, assumiu o cargo de secretária de Enfrentamento à Covid-19 pensando em fazer uma gestão técnica enquanto Bolsonaro falava suas coisas de internet: pediu demissão depois de uma semana.

Pazuello só foi ministro porque aceitou transformar as coisas de internet de Bolsonaro em políticas públicas.

Teve crises de consciência, que o fizeram, inclusive, tentar comprar a Coronavac. Mas, no fim das contas, um mandou, o outro obedeceu.

Os bolsonaristas aplaudiram o desempenho de Pazuello na CPI porque querem o general preso.

Para eles, isso teria duas vantagens: a prisão de um general poderia, em tese, animar o golpismo dentro das Forças Armadas. Além disso, se tudo der errado, Pazuello é peixe grande o suficiente para servir de bode expiatório dos crimes cometidos pelo resto dos bolsonaristas, peixe grande o suficiente para ir para a cadeia no lugar deles.

Enfim, quando forem escrever a história de como, no Brasil, as relações pessoais prevalecem sobre a lei, lembrem-se de Eduardo Pazuello, que preferiu ser soldado de Bolsonaro a general do Brasil.

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