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Morticínio brasileiro

EDITORIAL DA FOLHA

Não surpreende a marca de 400 mil mortos ante a conduta do governo Bolsonaro

A romper recordes lúgubres e diante de perspectivas desanimadoras para o futuro próximo, o Brasil acumulou 400 mil vidas perdidas para o flagelo da Covid-19.

A vantagem de ter sido uma das últimas nações a ser atingida pela pandemia iniciada na China —e ter tido tempo para aprendizado e preparo— foi desperdiçada pelo Brasil, cujo presidente fazia blagues da preocupação sanitária e incentivava comportamentos de risco.

O método logo cedo identificado como o mais eficaz para frear o espalhamento da infecção na ausência de vacinas —a testagem copiosa, o rastreamento microgeográfico da epidemia e o isolamento das redes de contágio— foi desprezado. Como símbolo da desídia ficaram milhões de kits diagnósticos abandonados num galpão do Ministério da Saúde em São Paulo.

Com a porta arrombada pelo vírus, restava coordenar e reforçar as iniciativas municipais, metropolitanas e estaduais para reduzir ao mínimo a circulação de pessoas quando a marcha da doença ameaçava a capacidade hospitalar.

Mas Jair Bolsonaro despenhou-se de novo na contramão. Abriu fogo contra governadores e prefeitos e exigiu do Supremo Tribunal Federal e do Congresso enorme energia institucional para neutralizar os arroubos tresloucados do Planalto, no momento em que ela deveria estar sendo toda utilizada no combate ao apuro sanitário.

Chegou o momento de pré-contratar vacinas, todas as que tivessem potencial no planeta, e o fracasso de Bolsonaro não foi menor, nem suas consequências menos mortíferas. A empáfia ignorante com a China e o governador João Doria, a aposta alucinada em emplastos ineficazes e a incompetência de assessores de terceira linha amalgamaram-se para semear a catástrofe humanitária ora colhida.

Com as linhas de defesa sabotadas, a ubiquidade do vírus no território brasileiro e a eclosão de segundas ondas precursoras na Europa e nos Estados Unidos, o Brasil tampouco acautelou-se para o choque que se previa a partir do verão.

Enquanto faltavam leitos de UTI e oxigênio em Manaus, o governo Bolsonaro promovia cloroquina na capital do Amazonas. O colapso se repetiu em outras cidades do país em meio à desmobilização de infraestrutura emergencial pelo SUS e à carência de fármacos para intubar pacientes críticos.

Diante de tamanha incúria, não surpreende, infelizmente, o tamanho do morticínio pela Covid-19.

Como proporção dos habitantes, a epidemia já matou tantos brasileiros quanto britânicos e mais que norte-americanos. Estas duas populações, extensamente cobertas pela vacinação, começam a voltar à normalidade com segurança. A brasileira ainda está longe disso.

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