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O Brasil está pior para quem? O troféu vai para as mães de 30 e 40 anos

Na ilustração, ao centro há um desenho de uma mulher preta, com cabelos amarelos e boca vermelha. Do seu lado esquerdo, há duas outras pessoas pretas, uma delas com cabelo vermelho. Do lado direito da figura central há outras três pessoas pretas. Elas estão em volta de uma panela. Uma delas segura uma faca e a outra um objeto. O fundo é azul e tem as seguintes palavras escritas: "devendo", "fome", "cansada", "triste", "geladeira vazia".

Da FOLHA

Por FERNANDA TORRES

Minha mãe, aos 91, está vacinada e perdeu colocações no páreo

Tenho 55 anos. Há uma semana, digitei minha idade e localidade no site de previsão da vacinação e fui informada de que seria imunizada em dois meses e um dia. Cinco dias depois, refiz a consulta e deu três meses e 22 dias.

Temo que daqui a uma semana a resposta seja “só quando Deus quiser”.

A Covid avança, com número de mortes pela doença atingindo patamares indigestos.

Ao longo de 2020, mantive a cabeça no lugar. O tsunami pandêmico de março, no entanto, deu cabo do que restava da minha sanidade mental.

Acordo angustiada, tomo café com o filho angustiado de 13 anos; troco uma ideia com o de 21, também angustiado; telefono para minha mãe e procuro aplacar a sua infinita angústia. Finda a jornada, repasso com o cônjuge as angústias do dia, antes de enfrentar a insônia.

Mas minha provação é nada, se comparada ao cotidiano dos milhões de brasileiros sem emprego, água encanada, hospital, transporte, esgoto e escola. Se é que é possível imaginar outro corte que não o da tragédia social, arrisco o do perfil etário e pergunto: afinal, está pior para quem?

Um ano atrás, eu diria que para os idosos, homens e mulheres sem tempo suficiente de vida para ver o mundo se recompor, ameaçados por uma moléstia mortal, para a qual não havia remédio ou vacina.
Hoje, já não estou tão certa.

Minha mãe, aos 91, está vacinada e perdeu colocações no páreo do “está pior para quem”. Mas a imunização não solucionou seus dilemas. O teatro, razão de ser de sua existência, será das últimas atividades a retornar a um improvável normal. Em silêncio, eu a vejo, puta da vida, calcular o tempo e a saúde que lhe sobra.

A geração dela testemunhou a morte de Getúlio, a renúncia de Jânio, o golpe militar, o AI-5 e as Diretas Já para, no fim, ser pega de surpresa pelo vírus e a ascensão de Messias.

Nela, impera a indignação de quem remou, remou e arrisca morrer na praia.

Mas os nonagenários, octogenários e septuagenários cresceram, ao menos, com alguma esperança de futuro e cumpriram grande parte de seu ciclo vital. O mesmo não se pode dizer dos jovens.

Meu filho mais velho se formará em filosofia em um ano e meio. Condenado ao ensino remoto e à solidão forçada na juventude, ele pouco conheceu da efervescência do campus.

Seus amigos se dividem entre os que se aglomeram como se não houvesse amanhã e os que, isolados, assumem o peso da responsabilidade sobre a vida alheia.

Meu outro acaba de completar 13 anos. Começava a gozar de alguma independência, quando se viu obrigado a voltar a conviver apenas com pai e mãe. Nos aguentamos bem, dou graças por ele não ter 15 e sei que está pior para o de 21.

Já os de 50, como eu, excluídos dos grupos de risco, aguardam conformados na fila da inoculação, cientes de que a internação hospitalar pela infecção das novas cepas não apresenta mais predileção de idade.

Nessa faixa, reina a melancolia de quem, quando isso passar, se passar, estará beirando os 60.

A perspectiva de sair do túnel soprando a velinha da terceira idade é triste, mas admitamos que os de 30 e 40 enfrentam uma rotina mais desgastante. Enjaulados com as crianças em casa, eles alternam a alfabetização dos pequenos com o trabalho a distância e a louça suja na pia. Na idade da potência, afunda-se no lodaçal.

Perdi a conta das separações, demissões, falências e crises nervosas dos trintões e quarentões próximos. Na pressão do acúmulo de tarefas profissionais, parentais e domésticas, a eterna desigualdade entre gêneros pesa para o lado das mulheres, que despontam como campeãs na corrida do “está pior para quem”.

Vantagem mesmo, só vejo para os que acabaram de parir.

Caprichosos e irresistíveis, os bebês nos raptam do convívio social. Pais e mães recentes costumam se ressentir do adeus às festas, aos porres, às viagens e à liberdade pregressa. Para aplacar a
sensação de perda e assegurar a paciência infinita dos genitores, a natureza nos dota de hormônios imbecilizantes.

Hoje, com a humanidade confinada, um casal recém-parido nada perde e ainda conta com doses extras de antidepressivos naturais.

Esses estariam na lanterninha do “está pior para quem”, não fosse a aflição de ter posto alguém no mundo numa hora feia dessas, em meio às noites mal dormidas das mamadas e das fraldas.

O troféu fica, então, com as mães heroicas de 30 e 40, sabendo-se que, na verdade, não está bom para ninguém.

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