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Japão, país mais preparado para sediar Olimpíada, será o único capaz de negá-la

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Cancelamento dos Jogos em meio à pandemia seria triste vitória do bom senso

Estamos aqui novamente diante da ausência de futebol em São Paulo e em busca de assuntos palpitantes.

Haverá alguma efeméride para nos salvar? Sempre há.

Faz, por exemplo, precisos 41 anos que Jimmy Carter anunciou o boicote dos Estados Unidos à Olimpíada de Moscou, em protesto contra a invasão do Afeganistão pelas tropas da União Soviética. Como se sabe, esporte e política não se misturam…

21 de março é também o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, porque é o dia do massacre de Sharpeville, em Joanesburgo, na África do Sul, quando negras e negros de diversas idades foram assassinados pelo regime do apartheid. Nada a ver só com esporte, embora com tudo a ver com tudo.

Ainda hoje, Jair Rosa Pinto, ídolo de Vasco, Flamengo, Palmeiras e Santos, além da seleção brasileira, faria 100 anos. Ele não merece que lhe atribuam ter inspirado o pai de outro Jair, o Espinho, para dizer o mínimo, mais para Adolfo, ou Benito.

O alemão Lothar Matthäus, eleito número 1 do mundo em 1991, completa 60 anos; o francês Antoine Griezmann, terceiro melhor jogador do planeta em 2016 e campeão do mundo em 2018, faz 30, e Ronaldinho Gaúcho, 41.

Mas o dia não é de festa porque não há o que festejar no mundo da pandemia, muito menos no Brasil, terra do genocida que bate todos os recordes que não queríamos bater.

Como não deveremos ver recordes serem quebrados na Olimpíada de Tóquio, adiada no ano passado, prevista para ser aberta dia 23 de julho, praticamente daqui a quatro meses. Como?

Para variar o Japão está mais que pronto em condições de organizar o evento de maneira impecável. Mas, como?

Já se falou de tudo. De realizá-la sem torcida, sem turistas, a qualquer preço, como garante o insensato Comitê Olímpico Internacional, ou até em 2032 —porque em 2024 os Jogos serão realizados em Paris e, em 2028, o evento acontecerá em Los Angeles.

As autoridades japonesas relutam em anunciar o cancelamento, como se fosse uma derrota do país. Claro que não será.

Ao contrário, será apenas triste vitória do bom senso.

Triste principalmente pelo significado na vida dos atletas, que sonham acordados em participar dos Jogos, dedicam o que têm de melhor para lá estar, com muitos deles diante da possibilidade de competir agora ou nunca mais. De que jeito?

Quando Carter boicotou Moscou-1980 e tomou como retaliação igual atitude em Los Angeles-1984 dos países da órbita comunista, de alguma maneira reavivou-se a memória de Berlim-1936, quando Adolf Hitler levou um Jesse Owens pelas fuças tamanha a contaminação política da Olimpíada.

Por deprimente que tenham sido tanto o boicote a Moscou quanto a Los Angeles, menos ruim o prejuízo causado pela contaminação ideológica que a ora vivida, pela infecção generalizada da saúde planetária.

Por paradoxal que pareça, exatamente o Japão também é o país mais pronto para curvar-se solenemente aos fatos e dizer ao mundo o que ninguém quer ouvir, mas precisa: não vai ter Olimpíada.

Pesquisas revelam que 80% dos japoneses são contra a realização dos Jogos neste ano, o que dá a medida do estágio civilizatório do país.

Quem viveu, quem cobriu, quem curtiu mesmo à distância a emoção dos Jogos Olímpicos sabe bem o tamanho da frustração.

Porém, vale medalha de ouro não negar o óbvio.

Melhor a lágrima olímpica que o pranto do velório.

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