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Queridas redes: e Bolsonaro?

De O GLOBO

Por PEDRO DORIA

Em que momento será levada a sério a ameaça que as mentiras do presidente representam para a democracia brasileira?

Desde quarta-feira, enquanto a turba de extrema-direita tomava de assalto o prédio do Capitólio, uma por uma as redes sociais foram decidindo impor limites mais drásticos ao presidente americano Donald Trump. O Twitter suspendeu seu direito de publicar por doze horas. Facebook e Instagram por um outro tanto que, na quinta-feira, foi tornado prazo indefinido pelo CEO Mark Zuckerberg. O Snapchat bloqueou o presidente americano. O mesmo foi feito pela rede de lives favorita dos gamers, Twitch. Pois é hora de perguntarmos: vale só para os EUA, ou serve também a Jair Bolsonaro?

O presidente que chega em suas duas semanas finais de mandato sem acesso às próprias redes sociais fez por onde. Donald Trump se elegeu com elas, não custa lembrar. Se elegeu explorando uma teia de notícias falsas, espalhando mentiras, incitando ódio racial. Aproveitou-se do sistema de publicidade nativo das redes, com a consultoria Cambridge Analytica, para insuflar os medos mais profundos dos eleitores, ampliar a distância entre grupos sociais, reforçar o instinto tribal. Ao invés de unir, Donald Trump é um político cuja marca é a da divisão. Governou cada dia de seu mandato para os seus atacando os adversários como se fossem inimigos.

Ele não é um acidente — como outros chefes de Estado eleitos pelo ódio que destilam tampouco são acidentes. Trump é fruto de uma sociedade que se informa por redes. Redes cujos algoritmos selecionam para mais distribuir, mais apresentar, justamente aquilo que causa mais polêmica, mais irritação, acirra ânimos. São plataformas que geram um estado de permanente indignação. É exatamente o tipo de espaço onde políticos como Trump se proliferam. Noutros tempos, não teria espaço. Calhou de ser agora, neste princípio de tempo digital.

Trump nunca fingiu ser diferente. Desde o início seu jeito de fazer política foi disseminando ódio e espalhando xenofobia pelas teias digitais. Sua plataforma sempre foram as redes sociais. E, em quatro anos, nunca nada foi feito por estas empresas privadas. Ou muito pouco. Apenas agora, quando já no período eleitoral, o espaço para publicidade foi cerceado. Avisos de que a informação dada pelo presidente é potencialmente falsa foram publicados. A distribuição de tuítes e posts foi cerceada. Só agora, no final.

Foi através das redes sociais que Donald Trump convocou a Washginton sua turba mais radical. Aí fez o discurso e, como um jacobino de direita, em essência os mandou tomar o Capitólio. O nível da gravidade do que aconteceu na quarta-feira é tamanho que ainda não foi possível processar. Pela primeira vez desde a posse de George Washington, em 1789, cidadãos americanos invadiram o Congresso para impedir que a pessoa legitimamente eleita presidente tivesse sua vitória homologada. Pela primeira vez desde a Guerra Civil, cidadãos americanos atentaram contra a democracia do país, contra a União. A democracia mais antiga do mundo. A democracia que inventou o regime.

Mas o que aconteceu quarta-feira não foi acidente, não foi intempestivo, não foi inesperado. Foi construído lentamente, ao longo de quatro anos. Com mentiras que por um lado estimularam o ódio contra adversários políticos e, por outro, boicotaram entre os mais crédulos sua confiança no sistema eleitoral. No alicerce do regime democrático.

Pois bem. Facebook, Twitter, YouTube, Snapchat, Twitch: Jair Bolsonaro está há dois anos presidente da República brasileira e segue rigorosamente o exemplo de Trump. Em que momento vai se começar a levar a sério a ameaça que suas mentiras livremente distribuídas representam para a democracia brasileira?

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Um comentário sobre “Queridas redes: e Bolsonaro?

  1. Renato oliveira

    Os bolsonaristas pintam e bordam nas redes sociais. Já está mais do que na hora de varrer essa extrema direita da face da Terra. As coisas no mundo precisam mudar, se não o mundo ruma para a destruição e o colapso.

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