É comum ídolos argentinos, como Maradona, serem cercados por dramas

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Don Diego conhece o paraíso e o inferno em todos os seus prazeres e dores

Três dias depois de festejar 60 anos, na sexta-feira, 30 de outubro, Diego Armando Maradona mexe com os sentimentos de seus admiradores ao ser hospitalizado e passar por cirurgia no cérebro.

É comum os ídolos argentinos serem cercados por dramas.

Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial da F-1 (1951/54/55/56/57), Alfredo Di Stéfano e Lionel Messi são algumas das exceções que confirmam a regra.

O eterno cantor e compositor Carlos Gardel morreu jovem, aos 44, em acidente aéreo, em Medellín, na Colômbia, em 1935. Dele se diz que canta cada vez melhor.

Evita Perón, a adorada primeira-dama, morreu aos 33, vítima de câncer no útero, em 1952, teve o corpo embalsamado exposto à visitação pública, roubado em 1955, e exumado 16 anos depois, intacto.

O pugilista Carlos Monzon, campeão mundial dos pesos médios nos anos 1970, tido como o melhor boxeador argentino de todos os tempos e um dos melhores da história do boxe, morreu aos 52 anos, em acidente de carro, ainda cumprindo pena de 11 anos de prisão por ter agredido e atirado sua mulher do segundo andar em Mar Del Plata. Ele pulou em seguida, mas teria sido por mera dissimulação.

Todos cabem em quaisquer letras de tango e Maradona ainda mais, por batê-los em longevidade e idolatria mundial.

Se há alguém neste mundo que conhece o paraíso e o inferno em todos os seus prazeres e dores, esse alguém é ele, Don Diego.

Legítimo sucessor do Rei Pelé, ganhou praticamente sozinho a Copa do Mundo para a Argentina em 1986 e, absolutamente sozinho, o vice-campeonato em 1990.

Com ele, o Napoli ganhou o primeiro título italiano, em 1987, e o segundo e derradeiro, em 1990. No inédito, ainda sem que o extraordinário brasileiro Careca fizesse dupla inesquecível com o argentino.

O menino que saiu da pobreza da Villa Fiorito, na periferia de Buenos Aires, para conquistar a idolatria no Boca Juniors e no Barcelona, não resistiu aos encantos proibidos da Catalunha e muito menos aos oferecidos pela máfia napolitana, a famosa Camorra, principal responsável pela aquisição do craque em litígio com o Barça.

Aos 23 anos, como resistir?

A dependência química se aprofundou e só mesmo o talento inesgotável permitiu tantos anos de brilho, em todos os sentidos.

Por aqueles olhos bruxos, por uma cabeça, o dia em que me queiras, tudo estava à disposição de quem os seguidores da Igreja Maradoniana até concedem: “Pelé é rei, mas Maradona é Deus”.

Certamente as cenas de encantamento que Maradona produziu pelos gramados do mundo superam os momentos degradantes pelos quais passou fruto da doença que voltou a incomodá-lo ao completar seis décadas de vida.

Um poço de contradições nas relações com a Fifa, incapaz de recusar um agrado mesmo quando sabia ser por puro oportunismo e, ao mesmo tempo, corajoso a ponto de se expor politicamente do lado que lhe parece mais justo, sua luta contra a dependência, a obesidade e o joelho demolido, dificilmente terá final feliz, porque seu gênio indomável é… indomável.

Enfim, trata-se de personagem tão dramático que apenas outro dia notei que ele é mais que Diego Armando Maradona, porque Diego Armando Maradona Franco —último sobrenome que não ficaria bem para quem rejeita as ditaduras de direita, embora nem sempre as de esquerda.

“E todo o povo cantou, Marado, Marado”.

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