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Moralismo e corrupção

De O GLOBO

Por JOEL BIRMAN

Militarização da política se associa à evangelização dos costumes

A história escabrosa da menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio durante quatro anos no Espírito Santo, e que dele engravidou, é exemplar do que ocorre hoje no Brasil. A crueldade se evidencia nos detalhes dessa saga, como a ameaça do estuprador de matar seu avô se fosse denunciado.

Sem subestimar a tentativa de silenciar a gravidade do caso com os comentários, oriundos de conservadores, de que a menina teve relações consensuais. Como se uma menina que levou um brinquedo de pelúcia para o hospital em que realizou o aborto pudesse saber algo sobre relações sexuais. As ilegalidades se multiplicam, intensificando a teia desse acontecimento trágico.

É preciso evocar que a menina foi impossibilitada de realizar o aborto no seu estado, numa conjunção macabra de covardia dos médicos em fazer o aborto baseados na lei, e da pressão de religiosos que sustentaram o imperativo da vida custe o que custar, sem considerar o preço que a menina pagaria com a gravidez, o parto e o nascimento do bebê.

Além disso, deslocada para Recife, onde o aborto aconteceu, a menina foi acossada no hospital com manifestações de moralistas, que jogaram a última cartada para impedir o ato legal de suspensão da gravidez. Não conseguiram, mas o embate não ficou por aí, pois tais religiosos pressionaram o Estado brasileiro por meio do Ministério da Justiça, que, por uma portaria indecente dos pontos de vista jurídico e moral, passou a multiplicar os obstáculos para que mulheres possam demandar aborto caso sejam estupradas.

Um protocolo humilhante faz com que a medicina, que deveria acolher clinicamente as mulheres, passe a funcionar como polícia, promovendo o depoimento da vítima e expondo a ultrassonografia para que saiba o “crime” que estaria cometendo, sem desconsiderar o exame de DNA do feto para localizar o estuprador.

Portanto, se o Ministério da Saúde passou a ser demandado a realizar esse protocolo em plena pandemia, o mesmo ministério militarizado não reconhece mais uma vez a lei e transforma o médico em policial, pisoteando o direito das mulheres ao aborto nessas condições.

Essa situação evidencia a face podre do poder no Brasil na atualidade, onde a militarização da política se associa à evangelização dos costumes. A pressão dos evangélicos no Recife se realizou pela divulgação de informações confidenciais sobre o destino da menina. Há suspeita de que informações foram oferecidas pelo governo, por intermédio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que contratou na ocasião macabra uma alta funcionária que afirmou ser o aborto um infanticídio em qualquer circunstância.

Porém foi o mesmo discurso evangélico, incrustado hoje no Estado brasileiro, que batizou o presidente Bolsonaro nas águas do Rio Jordão, pelas mãos do Pastor Everaldo, aliás preso recentemente, sob acusação de corrupção na área da Saúde no Rio de Janeiro, onde o governador Witzel, eleito na onda bolsonarista, é também acusado de corrupção no mesmo processo.

No Rio de Janeiro, o bispo Crivella, considerado o pior prefeito da história da cidade, realizou múltiplas corrupções, atacando a democracia com os seus “guardiões,” favorecendo a comunidade evangélica, como se estivéssemos num regime teológico-político. Não se pode esquecer ainda que o mesmo Pastor Everaldo, no primeiro turno das eleições de 2014, recebeu cerca de R$ 6 milhões para fazer perguntas adocicadas ao candidato Aécio Neves nos debates.

Foi ainda o poder evangélico que evidenciou sua face hedionda no crime da deputada e pastora Flordelis, que mandou matar a tiros o marido pastor com o auxílio de filhos e netos, após ter tentado envenená-lo por quatro vezes.

Tudo isso, sem esquecer que antes do crime a pastora e o marido teriam participado de uma orgia, numa casa de swing no Rio de Janeiro, o que, convenhamos, não é coerente com a Bíblia e com discurso evangélico que seja respeitável.

Enfim, tudo isso evidencia a dimensão de farsa do populismo político da extrema-direita no Brasil, em que se associam os dispositivos militar, policial e político, sob o espectro das milícias, pelo imperativo de liberação das armas, de maneira a minar a democracia, evidenciando de forma crua os laços existentes entre moralismo e corrupção.

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1 comentário em “Moralismo e corrupção”

  1. Eu ouvi, certa vez, um pastor dizer que era importante ter evangélico na política porque queriam uma estátua da bíblia, e não conseguiam. Tem gente passando fome no Brasil e esse tolo querendo se amostrar. E como eu já disse aqui no blog: estuprado são gente ou perversa moralmente, ou machista extremado, ou tem ódio de mulher. Vocês cuidado com evangélicos, eles estão insaciáveis por poder. Por poder o evangélico está fazendo de tudo, e suas intenções são malignas. Quem os apoia são outros safados iguais a ele.

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