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Um terço

Da FOLHA

Por TATI BERNARDI

Um fenômeno a ser estudado por nossos netos e bisnetos

Nossos filhos, netos, bisnetos, tataranetos, um dia estudarão o que os livros de história deverão chamar de “fenômeno do um terço”. Foi no Brasil, na década de 20 do século 21. Um homem que dormia sob a bênção de um ilustre torturador, que ensinava crianças a fazer gesto de arma com as mãos, que dizia a uma mulher que ela não merecia nem ser estuprada. Prevejo esse futuro progressista e democrático e suas crianças e adolescentes boquiabertos: “E por que ninguém tirava ele de lá, professor?”. E os professores, talvez filhos ou netos ou bisnetos desse período de feiura hedionda, quiçá sobreviventes diretos dessa fase obscura, responderão apenas: “Por causa do um terço“.

“História do Fascismo no Brasil – A era Bolsonaro”, capítulo “Coronavírus“: “E ele acabou por dizimar dezenas de milhares de pessoas estimulando-as a sair ao encontro da própria morte”. “Mas, professor, nem assim derrubaram essa desgraça do poder?” “Não, porque, conforme expliquei na aula passada, e foi tema da última Fuvest, naquele período o chamado ‘fenômeno do um terço’ conseguiu entrar pra história, com o Congresso e com tudo.”

Claro que o país se perguntava: o que ainda falta acontecer? O que pode ser pior do que tudo de pior que uma pessoa pode pensar, falar, fazer e ser? Perto desse homem, as cagadas econômicas da Dilma e os vexames de playboy do Collor talvez fossem vendidos na forma de “livro de história para colorir” em bancas de jornal. As pessoas não conseguiam dormir: e se hoje ele saísse defecando em nossas cabeças? E se hoje ele estimulasse o espancamento de gays e mulheres? E se ele disparasse uma metralhadora em um filhote de labrador na porta de um supermercado? E se ele escarrasse coronavírus em velhos, doentes e favelados? E se ele derrubasse a escalada no Jornal Nacional apenas com o poder de sua mente macabra? E se ele mudasse a Constituição inteira, ou a rasgasse, ou tatuasse uma nova Constituição em seu peito, escrevendo apenas SOU EU, PORRA. E se ele estrangulasse até a morte uma grávida da periferia que não quer ser mãe? E se ele preferisse as lojas Havan mais saudáveis do que seres humanos? Haveria a comoção necessária? Espera, mas ele já não faz tudo isso?

Contudo, o “fenômeno do um terço” seguia inabalável, chamando barbárie de “atitude”. Chamando assassinato de “livre comércio”. Chamando fascismo de “direita”. Chamando falta de caráter de “é o jeitão dele”. Chamando a mais triste descrença nos alicerces do país de “fé em Deus”. Chamando o que tem de mais terrível e podre e vil em nossos instintos primitivos de “contra a velha política“. Chamando um fetiche sexual bem sujão e mal resolvido de “conservadorismo”. Chamando crime organizado de “tudo pelos filhos”. Chamando ditadura e tortura de “não tem negociação”. Chamando não tem negociação de “pelo meu povo”. Chamando psicopatia com perversão de “leite condensado no pão”. Chamando uma enorme desculpa pra ser filho da puta de “raiva do PT”. Chamando o fim da humanidade de “recomeço”.

“Mas, professor, eles, o ‘um terço’, eram burros, detentores de muita ruindade no coração ou só estavam tristes e perdidos demais?” Eu queria poder ouvir a resposta.

Nós, os “66,6” (o número da besta: quem diria!), estamos gritando “Fora!!!”, enquanto eles, os “33,3”, enfiam um estetoscópio no nosso ânus e ordenam: “Fale 33, fale 33”. Eu só espero ter pulmão amanhã e depois de amanhã. Eu só espero que você também tenha.

Tocou o sinal. Finalmente! Na próxima aula, vamos ver como isso tudo acaba.

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1 comentário em “Um terço”

  1. Quando eu falo que esse imbecil vai atrasar o Brasil, o dólar está disparando, o sistema de saúde (inclusive o particular) está entrando em colapso. Enquanto isso o Bolsonaro só faz confusão e agora pede penico pro centrão. Palhaço.

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