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Minhas doidinhas e a Regina Duarte

De O GLOBO

Por JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Na intimidade eu as chamava de “minhas adoráveis doidinhas”. Eram as personagens de uma série de textos que publiquei aqui no GLOBO, pequenos perfis de algumas mulheres que tive a ventura de conhecer e me deram um sentido mais nobre à existência. Eram histórias verdadeiras, evidentemente sem identificar as protagonistas. Além do cuidado de preservar a privacidade dessas mulheres, tesouros guardados no lado esquerdo do peito, havia a intenção de que a leitora do jornal se reconhecesse naquelas cenas banais do cotidiano, cutucasse a colega no escritório e comentasse feliz – “Parece eu”. Eram relatos simples, alguma coisa entre a crônica e o conto, com o ligeiro truque de começar cada perfil com a expressão “Eu tenho uma amiga”.

“Eu tenho uma amiga que um dia chegou em casa e encontrou sobre a mesa da sala a carta do marido dizendo ‘Te amo, você é a mulher da minha vida, mas me apaixonei por outra e estou indo para Salvador morar com ela’”– era como começava uma das histórias, o triste caso, realidade na veia, de uma esposa abandonada.

“Eu tenho uma amiga que ganhou de presente de aniversário do namorado um voucher para uma sessão de massagem tântrica em Copacabana” – começava outra. Foram 100 histórias. A relação homem e mulher, as suas glórias e dificuldades, estrelava boa parte delas.

Um dia, e lá se vão uns dez anos, eu abri a caixa de e-mails e de um deles saltou em neon purpurina a assinatura de Regina Duarte. Ela estava acompanhando os textos pelo jornal e queria saber da possibilidade de adquirir os direitos para fazer alguma coisa com as minhas doidinhas. Eu respondi imediatamente com o mais óbvio dos e-mails, que seria uma honra, os direitos eram todos seus desde aquele momento. Foi então que desde aquele momento nunca mais recebi notícias particulares da Malu Mulher, da Rainha da Sucata ou da Namoradinha do Brasil. Foi triste por um lado, mas me permite contar agora esta história de número 101.

Eu tenho uma quase amiga que um dia me deixou falando sozinho na correspondência antiga dos e-mails. Ela só voltou ao radar das minhas preocupações uma década depois, eterna Viúva Porcina, noivando agora com um homem tão tosco quanto o poderoso e violento Sinhozinho Malta, que ela esposou como atriz na novela clássica da TV. Na dramaturgia, calcada no surrealismo tropicalista, a incompatibilidade do casal tinha graça. Na vida real, a nova dupla acasalada em Brasília parece pronta para fazer a sério uma tragicomédia insana, do tipo só dói quando eu rio.

Pois eu tenho essa quase amiga que me abandonou no altar do e-mail e vejo aqui de longe que lá vai ela, vestida de branco, de véu e grinalda, coerente com seus desacertos. Depois de casada na televisão com um “coronel” da roça que perguntava com ênfase afirmativa, “Tô certo ou tô errado?”, ela se aninha histriônica nos braços de um capitão igualmente assustador que também não quer saber de negativas – “Tá ok?”, ele pergunta peremptório, já sugerindo a resposta positiva.

Deve ser uma novela curta. Minha quase adorável doidinha é artista. Aos homens cheios de certeza, responde com a inteligência da dúvida. É o papel da cultura. E como ainda é segunda-feira, como de fato nada ainda começou, lanço daqui sobre sua cabeça de nubente o arroz da esperança e da boa sorte. Não guardo mágoa.

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