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A tragédia tricolor

Da FOLHA

Por LUIS ROBERTO DEMARCO

Interesses pessoais se sobrepõem aos do clube

Em 2019, o São Paulo Futebol Clube tem talvez o pior início de ano da sua história. No último dia 13, sofreu um de seus maiores vexames ao ser eliminado no estádio do Morumbi em uma pré-Libertadores.

Como de hábito, o sacrificado foi o técnico. Caiu o jovem Jardine, um ícone vencedor do São Paulo nas categorias de base, precipitadamente alçado ao time principal, assim como em 2017 havia sido o ídolo Rogério Ceni, usado como peça de marketing para a reeleição do presidente.

Quem foi ao Morumbi viu pela primeira vez um forte protesto contra a diretoria. O único título relevante que o outrora time mais vencedor do Brasil ganhou na última década foi uma Sul-Americana, em 2012. Fora isso, vive um jejum inédito em tudo, de Paulista a Libertadores, passando pela sua pior performance em clássicos, principalmente fora de casa. No Estadual, hoje o São Paulo não figura entre os oito times que se classificam para a próxima fase.

Os resultados futebolísticos da atual gestão são de novo os piores da história do clube. Por ser o presidente, não há como eximir Leco da responsabilidade. Ele é quem manda e desmanda. No vaivém dos técnicos, ele segue, recebendo salário e andando de BMW do clube. Mas nas derrotas sai pelos fundos, escondido.

Por trás da ineficiência da diretoria, entretanto, o São Paulo tem um problema estrutural ainda mais sério. Com uma política envelhecida e radicalizada, não existe a menor perspectiva de renovação. O presidente atual foi eleito de forma indireta, por um conselho em que 160 dos 240 membros são vitalícios, com uma idade média perto de 70 anos. A última eleição foi disputada por quase octogenários.

Qualquer grande empresa põe uma idade limite para sua diretoria, geralmente entre 63 e 68 anos. Porém, no São Paulo esse tema nem sequer é discutido, pois isso afetaria o status —e os sonhos de poder— justamente dos que dirigem o clube.

Com a falta de renovação e a vitaliciedade, os interesses e as vaidades pessoais dos conselheiros se sobrepõem aos da instituição, e o envelhecimento natural faz com que os líderes não tenham mais a visão e a energia necessárias. Essa gerontocracia asfixia o São Paulo.

E a paralisia afeta o futebol. Os jogadores, em vez de receberem liderança, amparo e motivação do comando, só veem vazio, comportamento errático e oportunismo. Diante da pressão de uma década sem grandes títulos, os fracassos se repetem.

A saída passa pela mudança urgente desse sistema político, permitindo, por exemplo, o voto direto dos sócios do clube e de sócios-torcedores qualificados pelo tempo e valor de contribuição. Mas, se quiser mesmo voltar a ser o grande vencedor, o São Paulo precisa virar uma empresa e ter donos, como funcionam a elite do futebol europeu e as franquias de todo o esporte profissional americano (NBA, NFL, MLS). E a torcida poderá ser acionista!

Enquanto não fizer isso, as vitórias do Tricolor continuarão a ser mais fruto de sorte circunstancial do que do planejamento e da inteligência que levaram às grandes conquistas do passado. E o São Paulo, que já foi a referência de modernidade e estrutura, vai se fixar cada vez mais como símbolo do atraso.

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