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Um juiz que parece ficção

De O GLOBO

Por GEOVANI MARTINS

Propus o roteiro de uma série a uma empresa gringa, mas acharam inverossímil demais

A primeira vez que vi um escritor na vida, lá pelos 19 anos, ele falou algo sobre a dificuldade de se viver com a venda de livros no Brasil, mas que a publicação ajudava a conseguir outros trabalhos, como por exemplo, escrever num jornal, ministrar oficinas, fazer roteiros de cinema.

Realmente, publicar um livro me abriu várias portas, entre elas algumas no audiovisual. Numa dessas, uma empresa gringa me chamou pra criar uma série. Se a ideia inicial fosse aprovada, seriam contratados outros roteiristas pra tocar o projeto pra frente.

Sugeri então que contássemos a história de um juiz desde os seus primeiros passos no sistema jurídico até o caso que lhe deu projeção nacional: a condenação de um ex-presidente do país. Com ares de duelo, nosso personagem ganharia a simpatia de boa parte da população brasileira, tornando-se uma espécie de super-herói, com direito a camisas, bonecos e um bordão: meu herói veste terno.

Com tanto apelo popular, o juiz se engaja totalmente na tentativa de condenar de vez esse ex-presidente. Seus seguidores, a princípio, parecem ignorar os outros tantos políticos com processos muito mais avançados mas que nosso herói deixa de investigar, está muito claro: é preciso pegar o chefe.

Até que chegamos ao ano de eleição presidencial. Estranhamente, esse ex-presidente acusado pelo nosso juiz lidera todas as pesquisas de intenção de voto. O que dá mais garra ainda pro juiz conseguir essa condenação. Com o ex-presidente candidato, prendê-lo torna-se cada vez mais uma questão de honra.

E então ele consegue condenar o ex-presidente. Passamos pelas eleições, o candidato indicado pelo preso não consegue transferência de todos os votos; o segundo colocado nas pesquisas anteriores vence a corrida presidencial.

Antes mesmo de assumir, o novo presidente convida nosso herói a assumir um cargo importante em seu governo: ministro da Justiça. O juiz, sem pensar duas vezes, aceita o mais novo desafio.

Quando tudo parece resolvido, surge o gancho para a segunda temporada. O então presidente começa a se cercar de figuras já conhecidas por práticas corruptas, e, mais, seu próprio filho (que também é político) começa a ser investigado por uma série de casos de corrupção e até de envolvimento com o crime organizado.

Nosso herói então se vê diante de uma encruzilhada: confrontar o governo atual e manter sua imagem de combatente voraz da corrupção ou silenciar-se para aproveitar por mais alguns anos seu cargo de ministro.

Os gringos detonaram minha ideia. Primeiro disseram que eu não entendia nada sobre questões jurídicas, se entendesse um pouquinho que fosse, não criaria esse clima de duelo entre um juiz e um réu, se quisesse fazer isso, era preciso que o personagem fosse um promotor. Afinal, como se luta contra um juiz? Depois falaram do próprio personagem, que tinha contradições demais. Era inverossímil que o juiz que condenou o líder das pesquisas se juntasse ao seu principal concorrente na corrida presidencial.

Por fim, desistiram da ideia de fazer uma série comigo. Mas, como já tinham me adiantado uma grana, e gringo não gosta de sair no prejuízo, me encomendaram o roteiro de um institucional sobre as laranjas brasileiras.

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