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E se… Sócrates

Por ROBERTO VIEIRA

O Doutor se debate em dúvidas. Não teria sido melhor Zoff defender a cabeçada histórica de Oscar? Não teria sido melhor cair ali mesmo em Sarriá? Mas como pode a derrota ser melhor que a vitória? Nem filosoficamente. A sua geração ficaria marcada como um futebol arte sem garra. Um bando de artistas circenses incapazes de resistir a um ex-presidiário em tarde de gala. Zico não merecia isso. Nem Falcão, ou Cerezo, ou Júnior. Nem o teimoso Telê.

Nem Sócrates.

Mas agora havia a machadiana batata quente. Ao vencedor, por vezes, restavam as batatas quentes. Falar, discursar, beber chopps revolucionários era uma coisa. Botar o guizo no gato era outra. Sócrates era capitão da seleção. O avião está rumando para Brasília. O general Figueiredo aguarda o escrete para celebrar o tetracampeonato mundial – bicampeonato da ditadura. Um feito e tanto para o discípulo de Geisel.

Médici está se mordendo de inveja.

O avião sobrevoa o planalto. Dá pra ver a multidão lá embaixo. A taça repousa nas cadeiras ainda com respingos de champanhe, cachaça e cerveja. O aparelho mais pesado que o ar é um canarinho que percorre os derradeiros quilômetros para a festa dos campeões.

Os jogadores descem no aeroporto. Mortos de cansaço, mas imensamente felizes do final feliz, eles desfilam nos carros do corpo de bombeiros. De repente, a surpresa. Ante o olhar estupefato de Telê Santana, Sócrates pede aos bombeiros que parem. Levemente embriagado, cigarro nos lábios, sentimento do mundo entre as mãos, o meio-campista pula com a taça no meio do povo. A multidão, inicialmente incrédula, ergue nos braços o seu capitão. Aos poucos, um a um, os jogadores entendem o recado e também vão descendo do carro do corpo de bombeiros. Paulo Isidoro some entre abraços e vivas. Luisinho e Leandro seguem triunfantes seu destino de heróis. Valdir Peres chora – a imensa culpa pelos gols sofridos perdoada pelo suor candango.

As câmeras capturam o momento sem saber o que fazer. Não dá pra censurar. Não dá pra editar.

Um fotógrafo não hesita.

Escalado para documentar o instante do encontro entre Sócrates e Figueiredo, ele clica a imagem inesperada do militar em seu labirinto. Um presidente que subitamente não manda em nada nem ninguém.

A ditadura militar chega ao fim de mãos vazias.

O velho e sofrido povo que não sabe votar solta seu grito do Ipiranga:

‘A Taça do Mundo é nossa!!!!’

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