Advertisements

Ney Matogrosso, alucinações, Chapeuzinho Vermelho: só a censura salva

De O GLOBO

Por LEO AVERSA

Nosso corajoso governador já proibiu o insolente És Uma Maluca, mas é preciso mais

Nosso enfaixado governador usou a sua notória coragem para censurar a performance que o coletivo És Uma Maluca apresentaria na Casa França-Brasil. Desde a proibição do balé Bolshoi pelos militares eu não sentia tanto orgulho de um governante. Esse coletivo de insolentes pretendia fazer uma alusão à tortura durante o que eles chamam de ditadura. Foi de rara sabedoria a atitude do governador: onde já se viu falar de tortura numa casa dedicada à arte? Arte não é para aludir ou pensar, arte é para enfeitar, para fazer bonito na parede da sala e, claro, para louvar a Deus. O nosso Deus, que fique bem claro, que é o único que existe.

O governador está certo: só a censura nos salva.

O Rio não precisa de um administrador, de alguém que solucione os problemas, quem resolve problemas é Deus. O que os fluminenses necessitam é de um guia moral, um bedel empoderado que nos diga o que é certo ou errado.

Para ajudá-lo nessa cruzada contra a sem-vergonhice, examinei a programação em cartaz, em busca de conteúdos marxistas, gayzistas e feministas. Aqui vão alguns que encontrei olhando a grosso modo, como pedem os novos tempos.

Nesta sexta tem um show de um tal de Ney Matogrosso. Um senhor que canta vestido de dourado. Que safadeza é essa? Por que não de azul, como recomenda a ministra? E dizem que além de cantar ele dança, de maneira libidinosa. Uma pessoa que dança é um subversivo em potencial. Se o faz de maneira lúbrica, é o próprio Satanás, não resta qualquer dúvida. Nosso vigilante governador tem a obrigação de censurar mais essa cerimônia de adoração ao capeta.

No Museu de Arte Moderna há uma exposição com o nome de “Alucinações à beira-mar”. Onde tem alucinação tem sexo e tóxicos, qualquer criacionista sensato sabe. Trata-se de uma apologia ao consumo de drogas e à orgia bem ao lado do Monumento aos Pracinhas. Uma falta de respeito! Para o bem da nossa cidade esse museu precisa ser censurado, exorcizado e demolido.

Nem as nossas crianças escapam. Vejam o nome dessa peça em cartaz no Casa Grande: “Malala, a menina que queria ir para a escola”. Essa escola por acaso é sem partido? E que nome é esse, Malala? Certamente ela não é uma menina cristã, então só pode ser terrorista. O governador tem que mandar prender essa tal de Malala e obrigá-la a assistir ao videocurso do Olavo de Carvalho.

Até o inocente Planetário foi tomado. Soube que lá fazem bullying com os nossos correligionários terraplanistas. Olha a intolerância! As minorias reclamam de discriminação, mas na hora em que são hostilizados os que pensam de maneira plana e rasteira ficam todos calados, cínicos que são. E mais, parece que nesse antro as pessoas ficam horas olhando para as estrelas. Isso é coisa de maconheiro, governador! Censura!

E num palco em plena Tijuca se instalou a mais marxista de todas, aquela que é comunista, feminazi e subversiva ao mesmo tempo: Chapeuzinho Vermelho.

Do que adianta ter quatro armas no quarto e um liquidificador na cozinha se a Chapeuzinho Vermelho tá solta nos palcos? Tem que censurar essa comunistazinha, governador!

Só assim os fluminenses — e o lobo mau — poderão dormir em paz.

Advertisements

Facebook Comments

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá, seja bem vindo ao Blog do Paulinho ! Deixe aqui suas dúvidas, sugestões e denúncias. Todas as mensagens serão lidas
%d blogueiros gostam disto: