Advertisements

Detalhes sobre os 44 dias de vingança contra o Blog do Paulinho

Eram passadas pouco mais de 15h do dia 09 de novembro quando a Polícia Civil de São Paulo, mais precisamente o DECAP, chefiado pelo midiático delegado Nico, invadiu (este é o termo correto) meu apartamento, com três agentes, para efetuar a prisão deste jornalista, condenado a um mês e 23 dias no regime semi-aberto, após tratar jocosamente o “garoto propaganda” Milton Neves com o termo ‘barrigada perdida”.

Desnecessário discorrer sobre a desproporcionalidade entre o ato cometido e a pena aplicada, remédio jurídico repudiado por todos os países civilizados que entendem a prisão de um jornalista por suposto crime de opinião como atentado e intimidação à liberdade de imprensa e ao direito de expressão do pensamento (nestes locais a punição aos excessos existem e são aplicadas na esfera cível).

No caminho para o DECAP e já dentro da delegacia fui informado por policiais que minha prisão havia sido encomendada (ou seja, tratava-se de um ato de vingança) – e financiada – por quatro pessoas (três delas ligadas ao Corinthians), entre os quais dois membros do judiciário.

Em sendo verdade, um escândalo.

Os fatos seguintes – creio que o leitor concordará, corroborarão com a informação.

Ainda na delegacia, de maneira ostensiva, policiais fotografavam-me, com o material (fotos), misteriosamente, sendo divulgado, horas depois, em listas de whatsapp e noutras mídias sociais de conselheiros alvinegros.

“Você será levado para um lugar VIP”, disse Nico após eu questioná-lo para que local seria transferido e indicar-lhe que possuía diploma universitário (que, pela legislação, deveria garantir-me ambiente adequado à graduação).

Passei os seis dias seguintes num DP (o 77º) que é, de longe, um dos piores da Capital, verdadeiro esgoto, dormindo no chão (a primeira noite fui jogado numa cela sem água e banheiro), com fezes doutros presos expostas porque a descarga do local estava quebrada.

Ao chegar o sexto dia soube que seria transferido para Tremembé, arrumei minhas coisas e deparei-me com uma dupla (responsável pela remoção) que parecia obedecer ordens que não as de suas funções: o policial mais velho algemou-me a outro preso, obrigando-nos a posar para outra sessão de fotografias, que, em nova coincidência, também circulou nas redes sociais de dirigentes do Corinthians.

O sujeito – com aparente desconforto do parceiro, novato, que tremia ao obedecê-lo – fez pior na sequência: ainda algemado ao companheiro de cela, fui levado ao IML para fazer exame de ‘corpo de delito” (até então sentado no banco de passageiro da viatura), mas, bastou o laudo dar ‘negativo” para que a maldade fosse iniciada, com o citado policial obrigando-nos a ir à parte traseira de viatura (atrás dos bancos), sem condições de defesa física (com ausência de cintos e demais itens de segurança), ordenando a seu ‘comandado’ que barbarizasse na Marginal Tietê, numa sucessão de aceleradas e freadas que ocasionaram-me uma contusão no joelho direito e fizeram-me vomitar durante boa parte do circuito, (na Rodovia Ayrton Senna), tocado a 170 km/h (que podem facilmente ser verificados nas câmeras e radares de monitoramento), expondo-nos a novo e grave risco de morte em eventual acidente.

Já em Tremembé, permaneci os dez dias seguintes numa cela de solitária (tratada pelo nome RO), insalubre, sem TV (ao todo passei 34 dos 44 dias sem acesso ao aparelho), tomando banho gelado, almoçando e jantando apenas a mistura de uma comida lamentável (por sobrevivência), com direito a escolher entre sofrer com o calor (cobrindo-me com lençol) ou aceitar transformar-me em comida de incansáveis pernilongos (optei pela primeira).

Do 16º ao 20º dia, levado a uma cela apelidada “Faixa de Gaza”, dividida por 77 presos (que mais parecia uma estufa, com teto de zinco elevando a sensação térmica a níveis quase insuportáveis), fui obrigado a trabalhar na “capinagem” até ser chamado pela diretoria da casa e informado de que a Justiça do Paraná havia decretado minha prisão preventiva (sem condenação nem prazo de cumprimento) por suposta difamação (evidente escárnio jurídico) em ação envolvendo o nome do presidente do Atlético/PR, Mauro Celso Petraglia.

Por conta disso, conduziram-me, imediatamente, do sistema “semi-fechado” (não existe semi-aberto em Tremembé) para o rigidamente fechado, com direito a uma hora de Sol diária.

Foram 14 dias difíceis (4 deles deitado no chão por conta de superlotação) que findaram após habeas corpus concedido pelo STJ, que viu claro abuso na decisão judicial, fruto de competente trabalho do advogado Anderson Stigliani, do escritório da Dra. Gislaine Nunes.

Retornando ao “semi-fechado”, fui informado que havia perdido direito à “saidinha temporária”, em decisão afrontosa à Lei de Execução Penal, que mais parecia continuidade do estado de vingança (impedir-me de passar as festas de final de ano com minha família) impetrado pelos que teriam “fechado o pacote” de meu encarceramento.

Ainda assim, até pelo escandaloso excesso de prazo e meu comportamento exemplar na prisão, acreditava que havia possibilidade de soltura na progressão ao Regime Aberto.

Os dez dias seguintes passei com forte gripe (sem atendimento médico após duas solicitações de emergência), praticamente de cama, amparado na generosidade dos presos que dispuseram-se a doar-me remédios e xaropes, no aguardo do alvará de liberdade.

Na sexta-feira (21), às 18h, fui chamado para receber uma intimação dando conta de que a juíza Suely Zeraick havia, contrariando a LEP, indeferido minha soltura, mesmo após o Ministério Público (que em regra manda prender) tendo solicitado, em dois avais, minha progressão de regime.

Pior: a magistrada argumentou, para embasar o abuso, que havia nova ordem de prisão contra este jornalista, inverdade absoluta, desmascarada, posteriormente.

No dia seguinte, 22 de dezembro (o 44º), levantei-me às 06h, tomei café, assisti os presos saírem do presídio e retornei à minha ala, quando, após o banho, fui novamente chamado: “Paulinho, arruma as suas coisas, você vai embora para casa”.

Minutos após tive acesso a teor de novo habeas corpus, conseguido pelo Dr. Anderson, aos 44 minutos do segundo tempo do recesso judiciário, comprovando o “equívoco” da juiza de Tremembé ao negar-me a soltura.

https://blogdojuca.uol.com.br/2018/12/paulinho-passara-o-natal-em-casa/

Cheguei em minha residência às 14h do dia 22, passei muitas horas seguintes respondendo, uma a uma, as mais de seis mil mensagens de apoio em meu whatsapp, e agora inteiro-me dos acontecimentos a que não tive acesso durante o período afastado para que possa, logo após o Natal, voltar a dar ao Blog do Paulinho o mesmo ritmo que há doze anos transformou este espaço em relevante fonte de informações.

Ao querido leitor, agradeço pela solidariedade e fidelidade habituais.

Nos próximos dias, além das notícias e comentários de fatos relevantes, publicaremos interessantes perfis – inéditos e detalhados – da vida carcerária de dois ilustres presos em Tremembé: Edinho (ex-goleiro do Santos, treinador e filho do Rei Pelé) e Capá, ex-vereador de Francisco Morato ligado aos Gaviões da Fiel, porque, mesmo preso, este jornalista, apaixonado pelo que faz, não conseguiu parar de trabalhar.

Advertisements

Facebook Comments

3 comentários em “Detalhes sobre os 44 dias de vingança contra o Blog do Paulinho”

  1. Bem vindo, Paulinho. Sentimos a tua falta. Que vc tenha um Natal iluminado, de recuperação, saúde e paz, Abração

  2. Paulinho, o direito de livre expressão deve ser preservado, por isso, desejo-te muita força em suas batalhas diárias. Bem vindo de volta e que você tenha um excelente ano de 2.019!

  3. Estamos num país democrático, onde podemos emitir opiniões, esplanar o que bem entendemos, contudo, temos que ter responsabilidade em tudo que fazemos, inclusive, quando falamos e escrevemos. A vida 3 assim nosso direito, termina, onde inicia o do outro.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá, seja bem vindo ao Blog do Paulinho ! Deixe aqui suas dúvidas, sugestões e denúncias. Todas as mensagens serão lidas
%d blogueiros gostam disto: