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A arte esquecida de fazer craques

De O GLOBO

Por FERNANDO CALAZANS

Aplicar dinheiro na base só se for para ganhar mais ainda com a venda dos jovens

Reportagem publicada quarta-feira aqui na página de esporte, com o título de “Mercado de Usados”, mostrou que a maior parte dos grandes clubes brasileiros está gastando mais dinheiro na contratação de jogadores do que na formação e na preparação de jovens nas suas categorias de base. Mostrou também, no comentário de Rodrigo Capelo, que é mais um erro de planejamento cometido pela nossa classe de dirigentes, que prefere investir em contratações nem sempre racionais.

A situação é curiosa, e ao mesmo tempo triste, vista por um outro ângulo histórico. Que não é ou não devia ser novidade para ninguém, menos ainda para os cartolas e os técnicos. Sem nenhum rompante de patriotismo, de clubismo, ou de parcialidade, podemos dizer que o Brasil sempre foi, pelo menos durante o século passado, o maior fabricante de craques do futebol mundial. Como sabemos nós, e como sabe o resto do planeta. Como mostram os títulos mundiais e, mais até do que eles, as escalações de nossas seleções, incluindo até uma que não foi campeã, mas que foi a melhor daquela Copa de 1982, com Leandro, Oscar, Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Imaginem então as que conquistaram as taças.

Pois, de repente, a partir dos anos finais do século passado, nossa produção de craques foi perdendo força, perdendo brio, perdendo competência e, pior de tudo, perdendo importância. Nem tudo está perdido: ainda podemos criar um Neymar, um Philippe Coutinho, um Arthur e até garotos como Vinícius Júnior, Pedro e Rodrygo (17 anos, partindo do Santos para o Real Madrid), mas nem assim a produção se compara à mais antiga.

É fruto de um propósito diferente dos clubes brasileiros — não o de fortalecer seus times, mas sim os seus cofres, que andam vazios. Como a reportagem demonstra. Até clubes reconhecidos como grandes formadores de talentos já mudaram de rumo. Por exemplo, o Flamengo. Antes, tinha como lema a frase muito conhecida: “Craque, o Flamengo faz em casa.”

Hoje, pode até estar fazendo um ou outro, mas é para reforçar times de outras casas, na Europa — e o mais rápido possível. Em contrapartida, os jogadores contratados são de patamar bem inferior e mal se ajustam no time, como estamos vendo exatamente no Flamengo, outra vez como exemplo. Mas é o que acontece com todos os nossos grandes clubes de futebol.

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