Tempos sombrios

Por CILENE VICTOR
A queima de fogos. O som estridente de cornetas. Os gritos dos vizinhos. O som das panelas [sim, elas voltaram]. A voz de crianças na varanda gritando “chupa Lula”. A voz de umas mulheres gritando “Brasil”. Os comentários de alguns jornalistas e convidados hoje na TV. As agressões verbais que sofri nos últimos dias, a maioria delas abertamente aqui no meu Face. Nada, absolutamente nada disso me cala ou me faz desistir do país – sei que é difícil, mas não podemos desistir.
O passado, o presente e o futuro vivem sem fronteiras.
Hoje já é amanhã. E esse futuro custará muito caro aos coléricos, mas nós estaremos lá e, como sempre, com um propósito maior: garantir a democracia – é ela que está em risco.
Não abaixem a cabeça. Se alguém tem de abaixar a cabeça são os que não entenderam nada e, por isso, sem argumentos, fazem barulho para abafar a voz do outro.
Imaginem como deve ser difícil não ter argumentos e precisar de uma corneta. Isso sim é motivo de tristeza.
Na próxima viagem internacional, para os destinos manjados, é melhor que esses brasileiros da corneta escondam a nacionalidade, pois não vai cair bem se apresentar como sujeitos que chancelaram a decisão de um STF acuado.
Imaginem a vergonha de viver na segunda década do século XXI e ter de se calar diante do recado de um general.
Bem, muitos estão preocupados com o Lula, o que respeito, mas a minha preocupação maior é com a democracia e com a formação dos jornalistas.
Se a opinião pública está no auge da sua condição esclerosada, isso nos diz respeito e deve ser tratado com seriedade e serenidade.
E deixo aqui os meus cumprimentos aos colegas que estão fazendo um bom jornalismo, mesmo em tempos sombrios.
*CILENE VICTOR é jornalista, professora e comentarista da TV Cultura
