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Futebol não é mais paixão nacional?

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Nossas tragédias diárias têm ocupado muito mais o espaço de discussão que a lesão de Neymar

Já não basta o noticiário esportivo ser reduzido ao futebol, agora teremos ainda a editoria “Neymar vai ou não à Copa?”. Três meses falando sobre a lesão, a cirurgia, a recuperação, as chances do Brasil, a vida romântica de um único jogador. Claro que é uma notícia relevante, mas o drama que se cria em torno do assunto por parte da imprensa esportiva não parece ecoar aqui do outro lado.

Li que “a lesão de Neymar deixou o mundo inteiro preocupado”, que o torcedor da seleção estará “apreensivo sobre a condição física de seu principal jogador na estreia da Copa”. Sejamos honestos, é só dar uma olhada nas notícias mais acessadas nos principais sites nacionais para ver que o brasileiro parece estar mais preocupado com a intervenção na segurança pública no Rio, com o desemprego e com o crescimento da economia.

Será que o futebol deixou de ser paixão nacional? Duvido, mas parece evidente que há uma mudança enorme de comportamento do público. É fácil perceber que nossas tragédias diárias têm ocupado muito mais o espaço de discussão nos botequins de rua e nas mesas digitais. Política tornou-se nosso esporte favorito, aquele que desperta amores e raivas, rende brigas e fins de relacionamento.

Enfim, o povo parece ter amadurecido e o futebol, assim como qualquer esporte, ocupa na vida das pessoas o espaço que deveria ter, o de lazer, de entretenimento. Mas há um fator geracional importante quando percebemos que a lesão do jogador mais importante num ano tão decisivo para o esporte não desperta comoção semelhante à de 2002, quando Ronaldo foi a grande dúvida da Copa da qual ele acabou sendo a grande estrela.

São apenas 16 anos de um evento ao outro, mas de lá para cá o mundo mudou mais do que na segunda metade inteira do século passado sob alguns aspectos. Nossa relação com os ídolos do futebol passou pelas transformações naturais decorrentes do empobrecimento do futebol no país quando abrimos a porteira da exportação de craques nos anos 1990. Duelos de times como PSG, de Neymar, e Real Madrid, de Cristiano Ronaldo, têm mais repercussão do que qualquer jogo que envolva times brasileiros.

Mas o que talvez faça mais diferença na relação do brasileiro com o esporte seja a mudança de comportamento das novas gerações, que estão mais conectadas e interessadas em outro tipo de lazer que não o futebol “”ou não apenas nele. Crianças e adolescentes trocaram o sonho de serem craques nos gramados pelo de se tornarem celebridades na internet.

O Brasil já é um dos países com o maior número de jogadores de videogame do mundo, que tem cerca de 2 bilhões “gamers”. Pouco se noticia sobre o assunto, mas há por aqui profissionais que ganham salários milionários num mercado que não para de crescer. Não à toa, a França quer incluir os egames na Olimpíada de 2014, já de olho na queda de interesse dos jovens por esportes tradicionais.

Tite adiou as convocações para os amistosos da seleção contra Rússia e Alemanha. Além de Neymar há outras dúvidas também por questões médicas. Há pouco mais de três meses da Copa é curioso, mas positivo, ver que a escalação que mais tem interessado ao brasileiro seja a dos jogadores que irão disputar outro evento muito mais importante, as eleições.

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