Respostas rápidas são ideais para combater machismo no futebol

Torcedora ao lado de bandeira com o símbolo do Goiás no estádio Serra Dourada

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Posturas de Goiás e Vila Nova e da Band foram exemplares diante de constrangimento de ‘musas’

Em um clássico contra o Vila, se o juiz põe para fora, você mete a boca? Se o seu nutricionista mandar você chupar uma laranja, porque faz bem à saúde, você chuparia um saco? Se quem não tem perna é perneta, quem não tem punho é o quê?

Essas perguntas não foram feitas num programa humorístico do século 20, mas no “Os Donos da Bola”, da afiliada da Band em Goiás, no quadro “Desafio das Musas”. Assistir à gravação é ainda mais constrangedor do que ler a notícia.

O apresentador se achando super engraçado ao questionar as representantes do Goiás e do Vila Nova, em duas ocasiões diferentes, com questões de cunho sexual, comportamento digno de adolescentes dos anos 1990, em ebulição hormonal.

Musas do futebol, piadas com duplo sentido, tudo isso é muito século passado, mas a reação ao ocorrido foi digna dos dias atuais. Quarta (21), o Goiás Esporte Clube emitiu um comunicado repudiando o tratamento dado a Karol Barbosa e disse que “medidas serão tomadas”.

Horas depois, no mesmo dia, num efeito cascata, mas um tanto atrasado, o Vila Nova também se manifestou em apoio a Karolina Rodrigues, que tinha sido “entrevistada” no mesmo quadro, no dia 9 de fevereiro.

Quinta (22), foi a vez da direção da Band, em São Paulo, determinar o cancelamento do programa em Goiás, substituído pelo “Jogo Aberto”, apresentado por Renata Fan.

Exemplares as posturas dos times e da Band. Com respostas rápidas é que se combate machismo, assédio, homofobia, racismo, tão impregnados em nosso futebol, que nada mais é do que reflexo da nossa sociedade.

Foi de dar pena o despreparo das “musas” ao se verem em situações tão constrangedoras como aquelas. Uma mulher mais bem preparada e consciente do absurdo da situação teria levantado e deixado o programa. Infelizmente não foi o que aconteceu, mas ao menos não ficou por isso mesmo.

Como se não bastasse toda lambança, a justificativa do programa nas redes sociais foi de que tudo era apenas um teste. “As perguntas de duplo sentindo foram feitas para que todos parassem um momento e pensassem a respeito do que várias mulheres sofrem todos os dias”, dizia uma parte do comunicado.

Inventar uma desculpa mirabolante dessa é ainda pior do que não assumir o erro. É acreditar que o público é idiota. Não é. Acompanhei a repercussão nas redes sociais e, com alívio, percebi que homens e mulheres repudiaram o ocorrido.

Sempre digo que o feminismo precisa dos homens para que, juntos, possamos combater o machismo.

Ver dois clubes de futebol se levantarem em defesa das mulheres que, de alguma forma, os representavam, nos enche de esperança de que o mundo está, ainda que aos poucos, evoluindo.

Damos um passo à frente e dois atrás. Enquanto escrevo esta coluna, recebo um vídeo em que a campeã olímpica de judô Rafaela Silva conta que o táxi em que fazia o trajeto do aeroporto do Galeão para sua casa foi parado pela Polícia Militar.

A PM nega que tenha havido constrangimento e diz que intensificou o policiamento e que adota critérios técnicos e legais para cumprir sua missão, mas Rafaela afirma ter ouvido um dos policiais dizer ao taxista que achava que ele a tinha pegado na favela.

Parar negros dentro de táxis é critério?

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