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Vamos falar de Fernando Henrique?

Da FOLHA

Por MARCELO COELHO

Simpatia do ex-presidente por candidatura de Luciano Huck desmascara mito do estadista

O autoritarismo e a arrogância têm muitos disfarces. Conheço gente capaz de dizer barbaridades com um grande sorriso nos lábios, dando tapinhas nas costas da vítima. A simpatia, pensam, absolve tudo.

Não é bem simpatia: cabe mais falar num senso de familiaridade. O agressor age na certeza de que sempre foi e será apreciado. A indulgência com que trata a si mesmo, ele a projeta nos demais. Quando esmaga alguém, não deixa de olhar para um espelho imaginário, colhendo desde logo os aplausos pela proeza.

É uma espécie de abuso patriarcal, uma bonomia do mando, uma opressão grugulejante, um babado no despudor.

Claro que muita gente cabe nesse modelo, que tem variações de sexo, idade, ofício e região do país.

Já recordei, neste espaço, um exemplo do comportamento. Bem antigo, aliás: Fernando Henrique Cardoso era candidato ao Senado, em 1978, e estava num debate com Claudio  Lembo  —que tinha a espinhosa tarefa de defender o regime militar.

Elogiando a “abertura” de Geisel e Figueiredo, Lembo resolveu citar um cientista político americano, Samuel Huntington, que destacava a função “modernizadora” do autoritarismo de direita na América do Sul.

“Huntington defende a ditadura”, cortou Fernando Henrique, com razão. Lembo quis balbuciar resposta. Com o mais simpático dos sorrisos, FHC falou grosso: “Não adianta, disso eu entendo mais do que você”.

Houve depois a famosa foto em que FHC se sentou na cadeira de prefeito, dando por certa uma vitória eleitoral que acabou sem acontecer.

Já presidente, Fernando Henrique deu entrevista coletiva pouco após anunciar um aumento pequeno do salário mínimo. Um repórter da Folha perguntou, com uma ponta de demagogia, como faria o presidente se tivesse de viver com tão pouco.

“Faria o mesmo que você”, respondeu, em tom de “ora essa!”. Queria dizer que não adianta um jornalista se fazer de “povo” quando, afinal, todos “nós”, ou seja, “eu e você”, pertencemos à mesma classe.

Eu mesmo tenho um pé na cozinha“, brincou FHC ao tratar do racismo brasileiro. Era uma frase simpática, mas ao mesmo tempo escandalosa: ao usar expressão obviamente racista, ele sem dúvida tirava da cozinha o pé que dizia estar ali.

Resumindo, uma permanente sensação de estar “à vontade” disfarça em Fernando Henrique a sua profunda arrogância. Aquele famoso “sabe com quem está falando?” ganha uma versão particular nos modos do ex-presidente.

Em teoria, quem diz isso se coloca acima dos demais. No caso FHC, o autoritarismo é inclusivo: “Eu e você sabemos perfeitamente quem sou eu que está falando”. Por sermos da mesma patota, você sabe, sou eu que mando. Pode ficar quieto, já sabemos aonde você quer chegar. Só que eu cheguei antes. Já estou eleito, fique à vontade no meu gabinete de prefeito.

Como ex-presidente, FHC poderia se colocar num plano bem elevado, o de sábio estadista.

Suas considerações sobre a oportunidade de uma candidatura Luciano Huck confirmam, infelizmente, a característica que ele sempre teve: a de ser um imenso falastrão, cuja única inocência é a de achar sinceramente que é um sábio estadista.

“Ora, ora, você sabe que eu sou um estadista mesmo… Pare com esse nhe-nhe-nhem.”

FHC poderia conferir peso a propostas de reforma política ou equilíbrio nos debates sobre a Previdência; poderia moderar os embates entre o Judiciário e os políticos.

Não. Chama os holofotes para elogiar Luciano Huck.

Provavelmente, acha que qualquer um é tão inferior a ele mesmo que, entre Huck, Serra, Alckmin, Doria, Justus ou Romário, qualquer um serve, desde que ganhe.

Talvez FHC esteja mais uma vez seduzido por seu grande fetiche, o da “modernidade”, no seu modelito Jardins. Huck? Um rapaz “simples, boa figura, falei com ele outro dia no La Tambouille”.

O Plano Real, com seus grandes méritos, trouxe essa modernidade como bandeira: o câmbio baixíssimo e os juros altos permitiram nossas compras de bebida importada e nossas viagens com cartão de crédito internacional.

Dizia-se que aquela demagogia do dólar barato era na verdade uma aposta na possibilidade de renovar tecnologicamente nosso parque industrial. Entraríamos no Primeiro Mundo; quanto a você, se for um dos 60 milhões de excluídos de quem FHC fez pouco, saiba que, no Caldeirão do Huck, um arquiteto de grife redesenhará o seu barraco.

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