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Uma medalha para Nuzman

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Carlos Nuzman é um exemplo de resistência, além de ter sido o responsável por fazer do vôlei o segundo esporte do país.

Assim pavimentou o caminho para presidir o COB e nunca mais sair até atingir a glória de abrir a Olimpíada-16, num discurso insosso e interminável no qual, sempre que percebia um começo de vaias, mencionava o Rio de Janeiro como o melhor lugar do mundo, para ser aplaudido pelos incautos no Maracanã.

A rara leitora e o raro leitor desta coluna não se surpreenderam ao saber que, acionadas pela Justiça francesa, nossas autoridades enfim deram a ele o tratamento merecido.

Porque vinham lendo há anos, aqui, sobre as façanhas do cartola, capaz de fazer do Rio sede também do Pan-2007, a um custo dez vezes maior do orçado.

Verdade que a coluna errou ao subestimar suas artes e duvidar que a Cidade Maravilhosa superasse a Chicago de Barack Obama, Madri e Tóquio na corrida por 2016.

Ou ao prever que a Polícia Federal chegaria antes de ele abrir os Jogos em agosto do ano passado.

O que valeu para Ricardo Teixeira, destronado antes da Copa de 2014, não pegou para Nuzman.

Mas os leitores sabiam que o primeiro abraço de João Havelange, o então chefão do esporte brasileiro, no dia do anúncio da vitória carioca não foi nem em Lula, nem em Pelé, nem em Paulo Coelho ou no ex-governador Sérgio Cabral, muito menos no ex-prefeito Eduardo Paes, todos presentes em Copenhague, na Dinamarca, em outubro de 2009: Havelange abraçou Jean-Marie Weber, o “Homem da Mala”, que lá estava credenciado pelo COI, embora banido do esporte mundial depois da falência fraudulenta da ISL, a gigante do marketing esportivo, na qual era alto dirigente.

Quem quisesse ver veria quanto simbolismo tinha o gesto. Quanto!

Jean-Marie Weber fez o trabalho prévio para Nuzman poder seguir depois e depois.

Ainda em 2012, aqui se contou como foram roubadas informações sigilosas da Olimpíada de Londres.

Ou por que Nuzman, pela primeira vez em mais de cem anos das Olimpíadas modernas, acumulou os cargos no COB e no CoRIO-16.

Seus métodos para angariar patrocínios casados para ambos os organismos também foram minuciosamente descritos -e não poucas vezes valeram ações dele na Justiça contra o colunista, todas devidamente derrotadas, porque há limites para a desfaçatez.

Nisso, nem Nuzman nem Teixeira aprenderam com Havelange, incapaz de processar jornalistas, para não correr o risco de ser desmascarado nos tribunais.

Felizmente esta Folha tem ótimos advogados.

E por que tamanho pró-memória, se não passa de obrigação do jornalismo informar aos leitores?

Apenas para não ser cúmplice dos que, agora, na mídia, simulam surpresa e até tristeza diante do sempre sabido. Não era complexo de vira-latas nem coisa de fracassomaníaco.

A única surpresa nisso tudo foi a de saber que Nuzman guardava em casa R$ 480 mil em cinco moedas, pois nem mesmo o passaporte russo foi novidade. Supunha-se que Nuzman conhecesse o sistema bancário e o uso de cartões de crédito.

Certo de que ganhara a medalha da impunidade, Nuzman recebeu a da humilhação.

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