Há 25 anos, tentei “impedir” a conquista da Libertadores pelo São Paulo

Em 1992, o São Paulo conquistou seu primeiro título de Libertadores de América, no estádio do Morumbi, em dura decisão que resolveu-se nas penalidades contra o Newell’s Old Bpys, da Argentina.
Eu estava lá, então com 20 anos, tentando secar o Tricolor.
Quatorze anos antes da criação do Blog do Paulinho, torcedor ferrenho do Corinthians, sem a imparcialidade da profissão que sequer sonhava, à época, viria a abraçar, acreditava, sei lá por quais critérios, que minha presença no estádio daria azar aos adversários, que perderiam o título, para minha grande satisfação.
Me dei mal.
A jornada foi iniciada na Avenida Celso Garcia, defronte à Galeria do Brás, em que uma caravana de amigos Tricolores partiu para a aventura de ir ao Morumbi de ônibus (eram necessários dois), numa época em que o transporte público era ainda mais deplorável do que nos dias atuais.
Encaixei-me no grupo (somente com amigos de infância), com a promessa de que não revelariam, por razões óbvias, meu objetivo “secador”.
No caminho, quase voltei: tive que ir pendurado para fora do ônibus, pensando se valeria a pena tamanho sacrifício para assistir um jogo que não o do Corinthians.
Ao chegar defronte o portão principal, os amigos tricolores seguiram para a Arquibancada, enquanto eu havia comprado ingresso de “geral”, o único que poderia conceder-me acesso à torcida dos argentinos, local em que decidi, até para torcer com mais desenvoltura, arriscar-me.
Cai na besteira de deixar a carteira com eles, levando somente o dinheiro… no final contarei o que aprontaram…
Após ser avisado pelo policiamento militar de que se entrasse no setor da torcida “adversária” estaria por “conta e risco”, ao contrário do que imaginavam, fui bem recebido pelos ‘hermanos”, após, logo na entrada, deixar claro: “sou brasileiro, mas torço pelo Corinthians… não gosto do São Paulo, torcerei por vocês”.
Diverti-me, gritei Corinthians, Argentina, e tudo o que julgava necessário para desestabilizar a chance do São Paulo vencer a Libertadores.
Torcedor tem disso… acreditar que sozinho pode mudar as coisas….
O jogo caminhava, diante da dificuldade do São Paulo em romper o setor defensivo do Newell’s, para um zero a zero que ratificaria a conquista dos argentinos, e minha consequente consagração perante os amigos, até que, de repente, Macedo, na segunda etapa, entrou na área e foi derrubado.
Uma ducha de água fria: Raí, infelicitador notório de corinthianos, anotou o gol histórico, dando sobrevida ao São Paulo, que decidiria nos pênaltis,
Apesar da frustração inicial de quem se julgava um “secador” com a faixa no peito, segui confiante para assistir a disputa de penalidades, acreditando que o nervosismo dos jogadores do São Paulo faria o trabalho de impedir que a Taça ficasse no Morumbi.
Quando Ronaldão perdeu a sua penalidade, deixando os argentinos em vantagem, gritei como se fosse título do Timão e na minha cabeça surgiu a imagem de um retorno consagrador à minha residência.
Ledo engano.
Berrizo, Mendoza e Gamboa, malditos, perderam as cobranças argentinas, consagraram Zetti e fizeram do São Paulo, aquele incrível time de Telê Santana (de quem nunca consegui sentir raiva) Campeão da América.
O mundo caiu.
Saí das gerais tomando cuidado para não ser identificado como “adversário”, mas a demora na liberação dos portões aliada ao ‘revanchismo” dos amigos reservava-me um duro retorno ao ponto inicial da jornada.
Havíamos combinado o reencontro no caixa eletrônico que ficava no portal principal do Morumbi.
Além de não aparecerem, soube depois, propositalmente, haviam levado com eles minha carteira com documentos e o dinheiro que me restava.
Era a retaliação pela “secada”.
Obriguei-me, então, a pedir carona em ônibus de torcedores que pudessem, ao menos, passar perto do local em que morava.
Fui acolhido por uma caravana do Interior (creio que Ribeirão Preto), onde, a extremo contragosto, escutei durante todo o caminho cânticos de comemoração, beneficiando-me, ao menos, de generosa distribuição coletiva de cervejas, vinhos e até whisky.
Magoas afogadas, eram passadas 02h30 da madrugada quando avistei meu prédio, acreditando que, mesmo com a certeza da dificuldade em pegar no sono, passaria incógnito, escapando da “fúria” de são-paulinos ainda em estado de êxtase.
Nada.
Um comitê de recepção aguardava-me, com direito a tiração de sarro pelo título, pela minha empreitada derrotada e também por terem me largado à deriva do outro lado da cidade.
