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Decreto Legislativo concede título póstumo de Cidadã Paulistana a Nadir Kfouri, uma lutadora pela democracia

“A gestão de Nadir Kfouri enfrentou momentos importantes e difíceis vividos pela PUC-SP no contexto da ditadura. Foi uma defensora da Universidade diante das arbitrariedades da ditadura militar, abriu as portas da Universidade Católica para intelectuais perseguidos, entre os quais Paulo Freire e Florestan Fernandes, e iniciou a reconstrução do TUCA (teatro da PUC-SP) após os incêndios criminosos de 1984.”

“O episódio de maior tensão foi certamente a invasão da PUC-SP pelas forças policiais comandadas pelo coronel Erasmo Dias, então Secretário de Segurança de São Paulo, que ela enfrentou do jeito que sempre foi, como mulher forte e decidida, coerente com seus princípios de preservação da autonomia universitária, inabalável na afirmação da justiça e do respeito à dignidade humana.”

“Noticiada amplamente pela imprensa, permanece na memória a cena histórica protagonizada pela reitora, ao deixar o secretário da Segurança de São Paulo, coronel Erasmo Dias, de mão suspensa no ar, ao se recusar a cumprimentá-lo na noite em que a polícia que ele comandava invadiu violentamente a PUC-SP, onde se realizava um encontro para retomada da UNE, em 1977. “Não dou a mão a assassinos”, disse do alto de sua altiva indignação.”

(trecho da Justificativa do Decreto Legislativo 02-00039/2017)


PROJETO DE DECRETO LEGISLATIVO 02-00039/2017 do Vereador Toninho Vespoli (PSOL)

“Dispõe sobre a outorga de título de Cidadã Paulistana post mortem a Nadir Gouvêa Kfouri.

A Câmara Municipal de São Paulo DECRETA:

Art. 1º Fica concedido o título de Cidadã Paulistana post mortem a Nadir Gouvêa Kfouri, pelos relevantes serviços prestados à comunidade paulistana.

Art. 2º As honrarias dispostas no artigo 1º deste Decreto Legislativo serão conferidas em Sessão Solene a ser previamente convocada pelo Presidente da Câmara Municipal de São Paulo.

Art. 3º As despesas decorrentes deste Decreto Legislativo correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário.

Art. 4º Este Decreto Legislativo entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Sala das Sessões, 31 de Maio de 2017. Às Comissões competentes.”

JUSTIFICATIVA

A homenageada Nadir Gouvêa Kfouri nasceu em Avaré, em 19 de dezembro de 1913, numa família de origem libanesa de seis filhos.

A família mudou-se para São Paulo quando ela tinha 14 anos.

Seu pai, Salomão Kfouri, comerciante, “foi um homem trabalhador que ganhava bem”, mas, com família tão grande, precisou contar com o trabalho de seus filhos Trabalhando desde os 18 anos, Nadir dizia aos 70 anos: “tenho uma longa vivência de assalariada”. Relembra o pai como alguém que exerceu grande influência sobre ela. Mesmo sem nunca ter frequentado a escola, falava e escrevia corretamente em português, francês e árabe e gostava muito de literatura. Com ele aprendeu o amor pelos livros.

Fez toda a sua formação em escolas públicas: Escola Caetano de Campos, Instituto de Educação da Universidade de São Paulo (cursos de aperfeiçoamento pedagógico), que muito contribuíram com sua formação profissional. Participou intensamente de movimentos da Ação Católica. Dizia ela: “aí fui me inflamando por essa sede de justiça, que trago em mim até hoje”.

Seu registro no Conselho Regional de Assistência Social é de número 26.

Formou-se em Serviço Social em 1938. Seu trabalho de conclusão de curso foi sobre os Educandários da Capital, em que mostrava o absurdo de uma disciplina rígida, numa total ausência de relacionamento pedagógico com as crianças e adolescentes.

A partir de 1940 foi professora na Escola de Serviço Social, então agregada à PUC-SP.

Viajou aos Estados Unidos como bolsista de pós-graduação na National Catholic School of Social Service, em Washington, e então voltou para assumir a vice–direção em 1947 e a direção em 1951.

Foi também diretora e assistente social da Legião Brasileira de Assistência — LBA em São Paulo e da Secretaria do Bem-Estar Social do município de São Paulo.

Nadir formou gerações de assistentes sociais, deu cursos em todo o Brasil e em países da América do Sul. Como perita das Nações Unidas, deu aulas em escolas sediadas em Madri e Barcelona.

Em 1970, a Escola de Serviço Social passou a integrar a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, em 1972, Nadir se tornou Diretora do Centro de Ciências Humanas, cargo do qual se demitiu por discordar da forma como o desdobramento daquele Centro (que naquele tempo englobava também os cursos de Ciências Jurídicas e Econômicas) foi conduzido pela Reitoria e pelo Conselho Universitário.

Em 1976 assumiu a função de Reitora da PUC-SP, por indicação do então Grão-Chanceler Dom Paulo Evaristo Arns, que precisou interceder junto ao Papa Paulo 6º para quebrar o tabu de ser a pioneira entre as mulheres a ser indicada para esse cargo em uma universidade católica Em 1980 é reeleita pelo voto direto da comunidade puquiana para mais um mandato. Era a primeira vez que a PUC-SP elegia seu reitor através de eleições diretas, fato que inaugurava este procedimento democrático na universidade brasileira.

A gestão de Nadir Kfouri enfrentou momentos importantes e difíceis vividos pela PUC-SP no contexto da ditadura. Foi uma defensora da Universidade diante das arbitrariedades da ditadura militar, abriu as portas da Universidade Católica para intelectuais perseguidos, entre os quais Paulo Freire e Florestan Fernandes, e iniciou a reconstrução do TUCA (teatro da PUC-SP) após os incêndios criminosos de 1984.

O episódio de maior tensão foi certamente a invasão da PUC-SP pelas forças policiais comandadas pelo coronel Erasmo Dias, então Secretário de Segurança de São Paulo, que ela enfrentou do jeito que sempre foi, como mulher forte e decidida, coerente com seus princípios de preservação da autonomia universitária, inabalável na afirmação da justiça e do respeito à dignidade humana.

Noticiada amplamente pela imprensa, permanece na memória a cena histórica protagonizada pela reitora, ao deixar o secretário da Segurança de São Paulo, coronel Erasmo Dias, de mão suspensa no ar, ao se recusar a cumprimentá-lo na noite em que a polícia que ele comandava invadiu violentamente a PUC-SP, onde se realizava um encontro para retomada da UNE, em 1977. “Não dou a mão a assassinos”, disse do alto de sua altiva indignação.

Vale a pena registrar aspectos de sua vida pessoal, que tem como um de seus maiores prazeres a convivência com sua família (“tenho uma sobrinhada que é uma beleza”), que gostava de viajar, fazer amigos (“tenho amizades que vêm da infância e tenho amigos em várias partes do mundo”), que gostava de uma cervejinha, uma incondicional torcedora do Corinthians. E fiel ao cristianismo, que para ela sempre foi um estímulo e uma orientação de vida.

Como gestora democrática, ciente de suas responsabilidades, respeitou as diferentes opiniões e propostas, caminhou orientada pela justiça na busca de uma universidade autônoma comprometida com seu tempo.

Este é o legado de Nadir Gouvêa Kfouri, falecida em 13 de setembro de 2011, aos 97 anos.

Deixa para São Paulo um enorme legado, expresso, entre múltiplas conquistas, pela construção da primeira pós-graduação em Serviço Social no país.

A ela nossa gratidão, nosso reconhecimento e nossa saudade, que merece ser homenageada por essa Casa Legislativa recebendo o título de Cidadã Paulistana post mortem, assim aguarda total aprovação dos demais nobres vereadores.”

NOTA DO BLOG: Nadir Gouvêa Kfouri é tia do jornalista Juca Kfouri.

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Uma resposta to “Decreto Legislativo concede título póstumo de Cidadã Paulistana a Nadir Kfouri, uma lutadora pela democracia”

  1. magno SOARES (@magnolove10) Says:

    intelectual…………. Paulo Freire? desculpa acompanho seus textos sempre mas esses e o pior q ja li

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