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Como Lukaku dizia

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De O GLOBO

Por MÁRVIO DOS ANJOS

A precoce aposentadoria de Özil na seleção alemã expõe a crueldade do debate do imigrante no futebol

Numa longa carta via Instagram, o meia Mesut Özil se despediu ontem, aos 29 anos, da seleção alemã. O longo depoimento do jogador, natural de Gelsenkirchen e de ascendência turca, é a face mais dramática de uma discussão reaberta pouco antes da Copa do Mundo pelo belga Romelu Lukaku e que se intensificou com a contribuição decisiva dos filhos de imigrantes para o título da França.

Pouco antes da Copa, Özil gerou polêmica ao posar para uma foto com Recep Erdogan, presidente da Turquia que buscava reeleição. O episódio é lembrado pelo meia do Arsenal com rancores voltados ao presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Reinhard Grindel, um ex-membro do Parlamento filiado ao partido de Angela Merkel conhecido por visões críticas sobre o crescente islamismo do país.

Özil também é muçulmano. É a Grindel que o jogador dirige suas mais pesadas palavras: ao relembrar a atuação do congressista da União Democrata-Cristã, Özil qualifica suas opiniões contra o aprofundamento do islamismo na sociedade alemã como racistas, “inesquecíveis e imperdoáveis”.

Num dos parágrafos, o meia lamenta que por vezes seja referido como o “jogador alemão de origem turca”, ou “turco-germânico”, algo que não ocorria com os atacantes Lukas Podolski e Miroslav Klose, ambos de famílias polonesas. Nesse ponto, é impossível esquecer as palavras de Lukaku, que disse ao site Player’s Tribune que a imprensa o chamava de “atacante belga de origem congolesa” quando as coisas iam mal. Özil certamente sabia que a referência seria captada.

O depoimento de Özil é maduro e contundente. Não se arrepende de ter encontrado Erdogan, por ser o principal líder do país de sua família, e se alonga na descrição de dois orgulhos: o de pertencer à sociedade alemã, na qual cresceu e se educou, e ao mesmo tempo se orgulhar de sua herança turca, a qual não pretende esconder. “Erdogan e eu costumamos conversar sobre futebol, já que ele foi jogador na juventude”.

Só que o tabuleiro em que Özil se meteu dificilmente seria despolitizado. No período eleitoral turco, Erdogan sublinhou o permanente interesse de seu país em se tornar membro da União Europeia. À época, o presidente da França, Emmanuel Macron, disse que a Turquia deveria desistir de uma vez, por conta de diferenças em relação aos direitos humanos: o regime de Erdogan é amplamente criticado pela atuação na Síria, no Chipre e nos eventos posteriores ao golpe de estado fracassado de 2016. A posição de Macron é certamente a da primeira-ministra Merkel, cujo partido de centro-direita tem base eleitoral amplamente católica.

E Özil perdeu. Quatro anos depois de um título mundial, sua Alemanha estabeleceu a maior vergonha de sua história ao ser eliminada na fase de grupos, após uma derrota para a modesta Coreia do Sul. Todas as competências estão sendo reavaliadas, e o meia foi um dos mais apagados na campanha. Ao dar adeus à “Mannschaft”, Özil faz um movimento em que deixa de ser candidato a vilão e pleiteia uma vaga como vítima de uma estrutura social e profissional que não o aceita por sua origem. Suas razões são compreensíveis, e certamente Grindel não é um homem de braços abertos para o mundo. No entanto, é de se pensar que o péssimo resultado na Rússia influenciou sua decisão — afinal, Özil é igualmente odiado pela torcida turca desde 2010 quando optou pela Alemanha.

É uma situação bem diferente da dos franceses de famílias africanas. O lateral Benjamin Mendy não aceitou ser listado como senegalês numa recente postagem de um veículo inglês no Twitter, e reafirmou sua condição de francês nascido e criado. Momentos diferentes, pessoas diferentes, reações diferentes. O debate sobre o imigrante está longe de terminar no mundo, mas no futebol ele tende a ser ainda mais amargo e cruel, já que sempre será mediado pela vitória e pela derrota recentes. Como Lukaku dizia.

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